Parlamento Europeu envia acordo UE‑Mercosur à Corte de Justiça após protestos de agricultores
Plenário de Estrasburgo vota enviar o acordo UE‑Mercosur à Corte de Justiça; ratificação fica suspensa até parecer judicial.
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Parlamento Europeu envia acordo UE‑Mercosur à Corte de Justiça após protestos de agricultores
Por Marco Severini — De Estrasburgo. Num movimento decisivo no tabuleiro diplomático, o Parlamento Europeu decidiu, por uma margem estreita de dez votos, remeter o acordo UE‑Mercosur à Corte de Justiça da UE para que os juízes de Luxemburgo verifiquem sua conformidade com os tratados comunitários. A decisão representa um revés político para a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e foi recebida com entusiasmo por centenas de agricultores que acampavam desde ontem diante do hemiciclo.
Foram submetidas duas iniciativas ao plenário. A primeira, apresentada pelo grupo da Sinistra Europeia e subscrita por 145 eurodeputados de cinco grupos, obteve aprovação com 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções. A segunda, apresentada pelo grupo dos Patriotas pela Europa, foi rejeitada (225 a favor, 402 contra e 13 abstenções). Em consequência, a ratificação parlamentar do tratado permanecerá suspensa até que a Corte emita seu parecer. Importa notar, porém, que a Comissão Europeia ainda dispõe de mecanismos para aplicar provisoriamente o acordo comercial (iTA).
O cerne da controvérsia é jurídico: a Corte deverá avaliar a base jurídica do acordo de parceria UE‑Mercosur (EMPA) e do acordo comercial provisório (iTA), em particular a compatibilidade da fragmentação do pacto em dois instrumentos com os princípios de atribuição de competências, equilíbrio institucional e leal cooperação previstos no Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE). O texto aprovado pelo Parlamento expressa reservas também quanto ao mecanismo de riequilíbrio previsto no acordo, cuja compatibilidade com vários artigos do TFUE é questionada.
Enquanto aguarda o parecer da Corte, o Parlamento continuará a examinar os textos, mas ficará impedido de votar a aprovação ou rejeição final do iTA até a decisão judicial. O voto revela a tectônica de poder em curso dentro dos grandes grupos: líderes como Manfred Weber (PPE) e Iratxe García Pérez (S&D) haviam pedido celeridade, argumentando que a conclusão do acordo era estratégica, inclusive como contrapeso ao eixo transatlântico sob a administração americana anterior. Ainda assim, dezenas de deputados não alinhados — 40 do PPE e 34 do S&D — optaram por priorizar a salvaguarda jurídica e ambiental sobre a urgência política.
No plano nacional italiano, Fratelli d’Italia, Partido Democratico e Forza Italia manifestaram-se contra o envio à Corte; já Lega, Movimento 5 Stelle e AVS apoiaram a remessa judicial. As imagens dos agricultores, organizados em delegação da Coldiretti, celebrando em frente ao Parlamento, tornaram claro o impacto doméstico desta disputa: trata‑se de um redimensionamento de fronteiras invisíveis entre interesses comerciais, padrões sanitários e proteção dos produtores locais.
Para o grupo The Left, o voto é «um passo importante na defesa da democracia», argumentando que a Comissão teria ignorado o processo parlamentar ao assinar um acordo provisório antes da conclusão do escrutínio democrático. Na perspectiva estratégica, trata‑se de um momento em que as instituições europeias calibram os alicerces da diplomacia comercial — um teste sobre até onde vai a autoridade executiva quando confrontada com controles jurídicos e políticos.
Este episódio marca, pois, não apenas uma pausa procedimental, mas um reposicionamento do eixo de influência dentro da União. A decisão da Corte de Justiça será o próximo lance no tabuleiro: poderá reconfirmar a arquitetura jurídica pensada pela Comissão ou inspirar um redesenho das bases institucionais que regem as negociações comerciais da UE.