Von der Leyen diz não haver 'lágrimas' pelo regime do Irã e aponta renováveis e nuclear como antídoto à crise energética da UE

Von der Leyen rejeita 'lágrimas' pelo Irã e aponta renováveis e nuclear como resposta à crise energética e à dependência da UE.

Von der Leyen diz não haver 'lágrimas' pelo regime do Irã e aponta renováveis e nuclear como antídoto à crise energética da UE

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Von der Leyen diz não haver 'lágrimas' pelo regime do Irã e aponta renováveis e nuclear como antídoto à crise energética da UE

Por Marco Severini — Em discurso sóbrio no plenário do Parlamento Europeu em Estrasburgo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assumiu uma linha de firmeza política sobre o episódio envolvendo o Irã, afirmando que "não há lágrimas a derramar por um regime assim". A declaração, austera e deliberada, desenha um movimento tático: aceitar as consequências geopolíticas em nome de objetivos estratégicos maiores, ao mesmo tempo em que se reafirma um compromisso com os princípios da Carta das Nações Unidas e do direito internacional.

Na linguagem dos palcos diplomáticos, trata-se de um movimento de tabuleiro em que os fins justificam meios — ou, pelo menos, é isso que Von der Leyen parece ter sugerido. Mas a contradição aparece imediatamente, quando ela assegura o "compromisso inabalável" com o direito internacional, evidenciando a fricção entre razão de Estado e norma universal.

O aspecto doméstico da fala focou no impacto econômico: "Dez dias de guerra já custaram aos contribuintes europeus 3 mil milhões de euros a mais em importações de combustíveis fósseis. Esse é o preço da nossa dependência energética", disse a presidente. Em termos de exposição, Von der Leyen recordou que, em 2024, a União Europeia ainda importava 57% da sua energia, com mais de 90% desse montante concentrado em petróleo e gás natural.

Os choques recentes elevaram os preços: desde o início do conflito, os preços do gás aumentaram cerca de 50% e os do petróleo 27%, segundo a líder europeia. Essa escalada mostra a vulnerabilidade dos alicerces energéticos do continente — uma espécie de tectônica de poder que se traduz em faturas mais pesadas para cidadãos e empresas.

Como resposta, Von der Leyen apontou a alternativa óbvia e previsível: as energias renováveis e o nuclear. "Dispomos de fontes energéticas internas: as energias renováveis e o nuclear. Os seus preços se mantiveram estáveis nos últimos 10 dias", afirmou, usando o dado imediato para reforçar o argumento a favor do Green Deal — não como doutrina inquestionável, mas como caminho pragmático a ser ajustado.

Na sua intervenção, a presidente também buscou deslocar o centro do debate dos atos unilaterais de parceiros estratégicos para as consequências práticas sobre a segurança europeia. Citou, em tom firme, o ataque com drone que atingiu Chipre na semana anterior: "A sua segurança é a nossa segurança". É um lembrete de que, num tabuleiro global onde as linhas de influência se redesenham, ilhas e penínsulas tornam-se pontos sensíveis de transmissão de risco.

Von der Leyen relembrou que as políticas de diversificação implementadas nos últimos anos mitigaram parte do impacto: "Os nossos esforços estão a dar frutos", declarou. Ainda assim, alertou para a necessidade de reduzir a influência do preço do gás sobre a eletricidade e para a urgência de aumentar a produtividade das redes, diminuindo desperdícios e montando defesas mais resilientes contra choques externos.

Em suma, a intervenção foi um exercício de realpolitik comunicada com linguagem institucional: reconhecer os custos, evitar lágrimas públicas sobre regimes adversários, e empurrar o tabuleiro europeu na direção de maior autonomia energética através de energias renováveis e nuclear. Para quem observa as linhas de força internacionais como um vasto jogo de xadrez, trata-se de um movimento que procura preservar a estabilidade estratégica da União sem perder de vista os imperativos econômicos e sociais internos.