Por que EUA e Israel evitam atacar a ilha de Kharg, pivô do petróleo iraniano

Por que EUA e Israel evitam atacar a ilha de Kharg, epicentro das exportações de petróleo iraniano e risco para os mercados e a China.

Por que EUA e Israel evitam atacar a ilha de Kharg, pivô do petróleo iraniano

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Por que EUA e Israel evitam atacar a ilha de Kharg, pivô do petróleo iraniano

Por Marco Severini — A recente onda de ataques que deixou Teerã sob uma densa nuvem de fumaça negro e registros de vítimas evidencia uma escalada preocupante, mas também revela um cálculo geopolítico deliberado: os Estados Unidos e Israel têm até agora evitado atingir diretamente a ilha de Kharg, o coração logístico das exportações de petróleo do Irã.

Na manhã em que depósitos petroquímicos e um centro logístico em Teerã foram atingidos por raids atribuídos a Israel — ataques que, segundo autoridades iranianas, causaram ao menos seis mortos e cerca de vinte feridos —, permanece intacta a infraestrutura offshore que sustenta a maior parte das vendas externas iranianas. Kharg, um território de aproximadamente 25 km² situado a cerca de 20 km da costa, canaliza cerca de 90% do petróleo exportado pelo país, em grande medida destinado à China.

Os motivos dessa contenção são de natureza estratégica e econômica. Desde a guerra Irã-Iraque, relatórios da CIA já sublinhavam que o funcionamento contínuo das instalações de Kharg é "essencial à prosperidade econômica do Irã". Hoje, análises citadas pela Reuters apontam que os terminais associados à ilha controlam parcela relevante das receitas petrolíferas nacionais. Um ataque direto equivaleria a um movimento decisivo no tabuleiro global, com consequências imediatas para os mercados energéticos.

Imagens de satélite europeias do programa Copernicus, referenciadas pela BFM TV, mostram petroleiros atracados nos terminais e navios ligados a Teerã ainda transpondo o Golfo Pérsico, apesar da redução do tráfego no estreito de Hormuz, algumas centenas de quilômetros ao sul. No terreno da comunicação, Washington procurou minimizar temores: em entrevista à CNN, o secretário de Energia, Chris Wright, afirmou que os Estados Unidos «não pretendem atacar o setor energético iraniano».

Contudo, os bastidores da política externa norte-americana registram debates mais amplos. Fontes citadas pelo Axios indicam que entre responsáveis dos EUA foi considerada, em teoria, a opção de controlar Kharg por operação direta e até o emprego de forças especiais contra sítios nucleares. O ex-presidente Donald Trump deixou implícito que um desdobramento de tropas terrestres é "possível, mas não no momento". São cartas que permanecem guardadas no baralho estratégico.

Os números esclarecem os riscos: o think tank CSIS estima que o bloqueio ou a tomada de Kharg poderia reduzir até 1,6 milhão de barris por dia das exportações iranianas, majoritariamente destinadas à China, elevando o preço do brent em algo entre 10 e 12 dólares por barril. Em termos práticos, tal dano sobre infraestrutura crítica seria um choque direto ao mercado e um redesenho de fronteiras invisíveis na tectônica de poder energético.

Na análise final, a opção de não atacar Kharg revela prudência calculada: preservar os alicerces frágeis da diplomacia energética é, por ora, um imperativo que equilibra pressão militar e impacto econômico. Em linguagem de xadrez, trata-se de evitar um lance que, embora tentador, abriria o rei a um ataque cujo preço pagariam mercados e aliados.