Cortina de ferro digital em Moscou: whitelist, apagões e o ressurgir dos cercapersone

Moscou testa uma 'whitelist' digital: apagões, alta em cercapersone e walkie-talkies, e a promoção da super-app Max em meio a restrições e vigilância.

Cortina de ferro digital em Moscou: whitelist, apagões e o ressurgir dos cercapersone

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Cortina de ferro digital em Moscou: whitelist, apagões e o ressurgir dos cercapersone

Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance metódico em um tabuleiro de grande escala, Moscou e São Petersburgo estão sendo submetidas a um experimento de isolamento tecnológico com efeitos palpáveis na rotina urbana. Nos últimos dias, a capital russa tem vivido interrupções sistemáticas da conectividade móvel e a implementação de um modelo de acesso à rede que se aproxima de uma whitelist: apenas serviços explicitamente aprovados permanecem operacionais.

Oficialmente, segundo declarações do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, as medidas restritivas visam garantir a segurança nacional e proteger a cidade contra ataques por drones. Na prática, no entanto, analistas de publicações independentes como Meduza e agências internacionais como Reuters observam que tais manobras funcionam como um ensaio para um controle informacional mais amplo — um verdadeiro redesenho dos alicerces da diplomacia informativa, que alguns já denominam uma splinternet russa.

O cenário cotidiano ganhou contornos quase distópicos. Serviços considerados essenciais — portais governamentais, bancos e farmácias online — seguem acessíveis, enquanto o resto do ecossistema digital parece evaporar. Relatos da imprensa local apontam para falhas totais ou parciais do acesso móvel em vastos bairros. A consequência é imediata: aplicativos de mobilidade desaparecem, cadeias logísticas perdem eficiência e até a Duma reportou falta de sinal dentro do prédio do parlamento.

Do ponto de vista econômico, o impacto é contundente. O jornal Kommersant estimou perdas da ordem de 1 bilhão de rublos por dia (aproximadamente 10 milhões de euros), refletindo a paralisação de serviços, atrasos logísticos e a imprevisibilidade dos mercados locais.

Nos recantos mais pragmáticos da vida urbana, assiste-se ao ressurgimento de tecnologias consideradas obsoletas. As vendas de walkie-talkies subiram cerca de 27%, enquanto a demanda por cercapersone — relicário dos anos 1990 — aumentou 73% em estabelecimentos comerciais que buscam manter comunicações internas. Mapas de papel voltaram a ser valiosos: as cópias físicas de Moscou registraram um aumento expressivo nas vendas, testemunho da fragilidade dos sistemas digitais quando o tabuleiro é sacudido.

Paralelamente às interrupções, o Estado promove agressivamente a adoção da Max, uma super-app desenvolvida pelo conglomerado VK e inspirada em plataformas como a chinesa WeChat. A proposta é transformar a aplicação no ponto único de entrada para uma gama de serviços do cotidiano. Especialistas em direitos civis, porém, alertam para a ausência de criptografia end-to-end e classificam a ferramenta como potencial instrumento de vigilância em massa — um cavalo de Troia numa arquitetura aparentemente conveniente.

Para os que tentaram contornar as restrições, a tecnologia também se tornou um campo minado. Se o uso de VPNs até então oferecia rotas alternativas, a difusão de sistemas avançados de Deep Packet Inspection (DPI) torna cada vez mais complexo o desvio das barreiras. A tectônica de poder digital se reorganiza: as soluções técnicas de proteção cedem espaço a contramedidas estatais concebidas para fechar lacunas.

À distância, o movimento russo não é apenas um encerramento técnico; trata-se de um teste estratégico. A escalada de controles e a promoção de uma plataforma nacional remetem a uma arquitetura de soberania digital — um novo pacto entre Estado, mercado e sociedade, com implicações claras para as liberdades, a economia e a posição russa no eixo da informação global.

Como observador das engrenagens da geopolítica, vejo nesta manobra um deslocamento profundo: não é apenas a suspensão de conectividade, mas um movimento deliberado para reconfigurar o tabuleiro de comunicação. A questão que permanece é como os alicerces frágeis da diplomacia e da economia resistirão a este redesenho e que repercussões estratégicas isso trará ao equilíbrio regional e global.