Irã: EUA sabiam que 'regime change' era improvável; objetivo real era minar alianças com Rússia e China
Relatório classificado indica que os EUA sabiam ser improvável um 'regime change' no Irã; objetivo real teria sido minar alianças com Rússia e China.
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Irã: EUA sabiam que 'regime change' era improvável; objetivo real era minar alianças com Rússia e China
Por Marco Severini — Em uma avaliação que redesenha as linhas de força no tabuleiro estratégico do Oriente Médio, um relatório classificado do National Intelligence Council concluiu que os EUA sabiam, antes do confronto aberto, que a possibilidade de um regime change no Irã era remota. Segundo fontes consultadas pelo Washington Post e reproduzidas por apurações jornalísticas, a justificativa pública do derrube do governo teocrático teria sido, em grande medida, uma narrativa destinada a legitimar ações que, na verdade, perseguiriam fins distintos: minar as alianças regionais do Irã com a Rússia e a China.
O documento, datado aproximadamente de uma semana antes do início das operações militares que envolveram EUA e Israel, teria sido uma peça de diagnóstico do cenário. Na leitura da inteligência norte-americana, dois fatores tornavam improvável a derrubada do establishment clerical: a coesão histórica das instituições iranianas e os protocolos de continuidade do poder implementados por Teerã, que amenizariam o impacto de ataques de larga escala.
Em linguagem de diplomacia dura — onde cada lance é ponderado como num xadrez de alto nível —, o relatório descreve que mais produtivo, do ponto de vista estratégico, seria um movimento que agisse sobre os alicerces externos do poder iraniano: a erosão das suas ligações com Moscou e Pequim. Essa leitura transforma o conflito de um objetivo de substituição de regime em uma operação de enfraquecimento das redes de apoio geopolítico do Irã, um redesenho de fronteiras invisíveis na tectônica de poder mundial.
Paralelamente, circulam fortes rumores, com menção a informações internas, de que os EUA, Israel e o Reino Unido consideraram a realização de operações false flag nos pontos nevrálgicos de tráfego marítimo — especificamente o canal de Suez e o estreito de Bab el-Mandeb — com o objetivo de imputar a responsabilidade ao Irã. Esse elemento, se confirmado, revelaria uma estratégia de atribuição de culpa como instrumento para redesenhar alianças e justificar escaladas.
O conflito, desde o seu recrudescimento, já causou uma expansão da violência na região, com mais de 1.700 mortos em diferentes episódios no conjunto do Oriente Médio, segundo apurações consolidadas. Fontes citadas pelo Washington Post também relatam que, dentro da coalizão aliada, houve fricções: Washington teria considerado "excessivo" um ataque israelense a depósitos de combustível em Teerã, uma ação que produziu efeitos econômicos (alta do preço do petróleo) e um desgaste de imagem entre manifestantes iranianos, criando a primeira fissura perceptível entre parceiros desde o começo das hostilidades.
Do ponto de vista da inteligência, a resistência do sistema iraniano — moldada por décadas de institucionalização e por uma estratégia de sobrevivência — tornava previsível a continuidade do regime. Assim, o cálculo político-militar norte-americano, segundo o relatório, deslocou-se de um objetivo de substituição interna para um objetivo externo: desarticular as alavancas internacionais que conferem ao Irã capacidade de projeção.
Como analista que observa o tabuleiro global com a frieza de um estrategista, é imperioso notar que esses vazamentos e suposições não são apenas peças de notícia; são movimentos táticos que visam moldar opiniões, construir justificativas e recalibrar alianças. Se verdadeiro, o relatório do National Intelligence Council documenta um plano onde a ação militar tem por finalidade um redesenho das relações de poder — um abalo das conexões do Irã com a Rússia e a China — ao invés de um derrube direto do regime. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro, cujo efeito será avaliado nos lances subsequentes da diplomacia internacional.