Crans-Montana: segurança falha e a denúncia de Predrag Jankovic sobre policial que se negou a socorrer vítima do incêndio

Segurança precária em Crans‑Montana: segurança denuncia policial que se negou a socorrer jovem após incêndio no Le Constellation. Indiciados e investigação em curso.

Crans-Montana: segurança falha e a denúncia de Predrag Jankovic sobre policial que se negou a socorrer vítima do incêndio

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Crans-Montana: segurança falha e a denúncia de Predrag Jankovic sobre policial que se negou a socorrer vítima do incêndio

Por Marco Severini — Em uma reconstrução que revela os alicerces frágeis da segurança e da responsabilidade institucional, Predrag Jankovic, um dos seguranças que atuava no discopub Le Constellation na noite de Ano‑Novo, prestou depoimento apontando falhas graves ocorridas durante o incêndio que transformou aquela noite em tragédia.

Segundo o relato de Jankovic, momentos após o princípio de incêndio ele encontrou, do lado de fora do local, uma jovem inconsciente e praticamente desnuda — as roupas, afirmou, haviam se dissolvido devido ao calor e às chamas. Ao indicar a situação a um policial presente nas imediações e solicitar auxílio, teria ouvido uma resposta lacônica e chocante: “Não estou aqui para isso”.

É uma afirmação que, por si só, desenha um movimento decisivo no tabuleiro institucional: quando o elo entre civis, responsáveis pela segurança privada e forças públicas se solta, a arquitetura da proteção coletiva rui. A denúncia de Jankovic coloca sob luz dura não só a conduta do agente, mas uma cadeia de ordenamentos operacionais e decisões logísticas tomadas antes e durante a calamidade.

No seu depoimento, o trabalhador, formado como carpinteiro e sem treinamento formal como agente de segurança, explicou que as instruções para a noite eram estritas: permitir entrada e saída do público exclusivamente pelo acesso principal e manter fechadas as demais portas, inclusive as de emergência, para evitar a entrada de frequentadores sem pagar. “Devem entrar apenas por este acesso. As outras portas devem permanecer fechadas porque senão entram sem pagar”, teria sido a orientação.

Essa prática, segundo a narrativa de Jankovic, transformou as rotas de fuga em caminhos barrados, aumentando o caos quando o fogo se alastrou. Ele declarou também que não era “guardia giurata” e que, naquela noite, o equipamento de combate a incêndio e o aparato de segurança eram praticamente inexistentes: “Eu tinha apenas uma lanterna. Não tinha mais nada”, afirmou. A ausência de extintores visíveis dentro do estabelecimento também foi mencionada.

O quadro se insere em um contexto maior de inquérito: além das investigações sobre as circunstâncias do fogo, magistrados consideram a possibilidade de que recursos de origem ilícita tenham sido lavados através de diversos estabelecimentos atribuídos ao casal Moretti, especialmente diante de incêndios seguidos por vultuosos ressarcimentos de seguros. Recentemente, uma solicitação de cooperação judicial da França relativa ao bloqueio de bens do casal foi negada.

Paralelamente, cinco novos indiciados foram arrolados no processo, entre os quais o prefeito Nicolas Féraud, acusado por crimes que incluem homicídio culposo, lesões e incêndio culposo — as mesmas imputações formuladas contra os Moretti. Outros nomes citados na lista de indiciados são Kévin Barras (ex‑responsável por segurança no governo local e atual suplente no Parlamento valaisiano), Pierre Albéric Clivaz, Rudy Tissières e Baptiste Cotter, todos com passagens por funções de controle entre Crans e Chermignon.

Do ponto de vista estratégico, esta investigação revela um redesenho de fronteiras invisíveis entre setor privado e autoridades locais, e expõe a frágil tectônica de poder que pode transformar negligência administrativa em desastre humano. A denúncia de Jankovic funciona, portanto, como um espelho perturbador: não se trata apenas de uma falha operacional isolada, mas de falhas sistêmicas que exigem resposta institucional séria e imediata.

Enquanto as apurações prosseguem, permanece a necessidade de exame detalhado das rotas de evacuação, dos protocolos de segurança aplicados em casas noturnas e do treinamento mínimo exigido para quem atua na linha de frente do controle de multidões. No tabuleiro jurídico e político que se abre, cada depoimento, documento e decisão processual representa um lance que pode realinhar responsabilidades e prevenir novos desastres.