Endometriose: dor negada e minimizada — pesquisa revela descrédito até no sistema de saúde

Pesquisa nacional revela que dor da endometriose é frequentemente minimizada e desacreditada, inclusive por médicos. Campanha busca visibilidade e escuta.

Endometriose: dor negada e minimizada — pesquisa revela descrédito até no sistema de saúde

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Endometriose: dor negada e minimizada — pesquisa revela descrédito até no sistema de saúde

Por Alessandro Vittorio Romano — A paisagem íntima do corpo feminino guarda ciclos e ritmos que muitas vezes são comparados à respiração das estações: nascer, florescer, recolher. Mas para muitas mulheres que vivem com endometriose, esse ciclo é interrompido por uma dor que é frequentemente invisibilizada. Uma sondagem nacional, promovida pela Fundação Italiana Endometriose e baseada em mais de 830 testemunhos anônimos, lança luz sobre como a minimização do sintoma e o descrédito atravessam a família, a escola, o trabalho e — preocupantemente — o próprio sistema de saúde.

Os relatos chegam de todo o país: 52% residem no Norte, 23% no Centro, 13,6% no Sul e 6% nas Ilhas, com algumas participantes vivendo no exterior. A pesquisa revela um padrão que se enraíza cedo: em 57% dos casos os sintomas dolorosos surgem ainda na adolescência; cerca de 20% entre os 18 e 25 anos; 17% entre os 26 e 35 anos; e cerca de 5% após os 35 anos. É como se, desde a idade escolar, muitas mulheres começassem a conviver com um inverno silencioso dentro do corpo.

O levantamento mostra, com clareza perturbadora, o impacto do descrédito. 66% das participantes disseram ter se sentido “frequentemente não acreditadas” quando relataram seus sintomas; outras 23% afirmaram que isso ocorreu “pelo menos algumas vezes”. Apenas uma minoria declarou nunca ter vivido essa experiência. No espelho das relações sociais, a mensagem é repetida: a dor é normalizada.

Quando o foco se volta ao atendimento médico, os números são igualmente significativos: 45,7% afirmam que a dor foi minimizada; 18,2% relatam que foi posta em dúvida; e 14,2% que foi ignorada. Somente cerca de uma em cada cinco mulheres (21%) declarou ter se sentido plenamente acreditada por profissionais de saúde. Esses dados acendem um alerta sobre como a confiança entre paciente e médico pode ser fragilizada, deixando a mulher sozinha diante de um sintoma que devora o cotidiano.

A normalização do dor menstrual aparece como um sentido comum: 91% disseram ter ouvido ao menos uma vez que o sofrimento do ciclo é “normal” e 87% receberam, de forma explícita ou implícita, a mensagem de que aquilo era apenas fisiológico. Quem transmite essa mensagem? Em 34,9% dos casos veio de médicos; 20,9% da família; 7,1% de amigos; 4,8% do ambiente de trabalho; e 3% da escola. A banalização, portanto, é um fenômeno tecido em múltiplos fios sociais.

As consequências não são apenas emocionais: depois de ouvir que a dor era “normal”, 30,5% das entrevistadas mudaram de médico, e 18,4% reduziram a forma como relatavam seus sintomas. É uma colheita amarga — perda de confiança, itinerários diagnósticos interrompidos e, muitas vezes, diagnósticos tardios.

Para contrariar essa névoa da incompreensão, a Fundação Italiana Endometriose lançou uma campanha de sensibilização com instalações visuais nas estações de metrô italianas. A proposta é tornar visível o invisível: mostrar, como uma pintura na parede do cotidiano, que a dor feminina não é uma nota de rodapé. Em linguagem sensorial, diria que é hora de cuidar das raízes do bem-estar e de reconhecer o tempo interno do corpo, antes que a indiferença se transforme em perda.

Como observador do cotidiano italiano, vejo nessa iniciativa a tentativa de transformar a cidade numa memória mais atenta — onde a escuta se torne ato cotidiano e a endometriose deixe de ser um segredo sussurrado para se tornar um tema de cuidado público e compassivo.