Os cartazes do Sì que misturam Beccaria, filhos e o CSM: campanha gera polêmica na reta do referendo
Cartazes gigantes do Sì misturam Beccaria, crianças e o CSM; campanha simplifica o debate sobre a separação das carreiras e provoca críticas.
RESUMO ✦
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Os cartazes do Sì que misturam Beccaria, filhos e o CSM: campanha gera polêmica na reta do referendo
Por Giuseppe Borgo — A poucos dias do plebiscito sobre a separação das carreiras, surgem nas ruas de Roma outdoors e cartazes que mais parecem cenas de teatro mal montado do que argumentos políticos. A campanha pelo Sì, levada adiante por parte das Camere Penali, escalou para mensagens gráficas de grande impacto — literalmente: um dos manifestos apareceu em tamanho gigante na traseira de um ônibus — e, na prática, adota uma linguagem simplista que confunde imagem e reforma.
O uso do rosto de Cesare Beccaria, pai de parte do pensamento jurídico iluminista italiano, no mesmo contexto publicitário choca pelo contraste entre a profundidade de sua obra e a reducionista propaganda de rua. No cartaz fotografado em Roma, um jovem segura um estojo com a balança da justiça; ele mostra o símbolo a uma moça, que parece sem palavras. A legenda: “Dì di Sì e basta” e um apelo ainda mais genérico: “Vuoi una giustizia finalmente giusta? Sì. Sicuramente.” O efeito é o de transformar um debate constitucional complexo em uma frase de venda direta — alicerces da lei reduzidos a um slogan.
O segundo cartaz é ainda mais contestável. Um pai repreende um filho: “Questa casa non è il Csm, chiaro?”; o menino responde que não é justo levar punição sempre que erra. A intenção declarada é comunicar responsabilidade: “la giustizia si fa responsabile”. Na prática, a analogia entre um órgão colegiado com competências disciplinares como o CSM e uma casa onde se corrige um erro infantil é uma simplificação que beira a caricatura. Para muitos observadores, a peça atravessa o limite entre provocação legítima e uma representação imprópria da administração da justiça.
Há, nos bastidores, um motivo óbvio para essa sutileza zero: a percepção de que as pesquisas ainda favorecem o No. Pressionados por números desfavoráveis, advogados e comitês que apoiam a reforma recorrem a tudo que chama atenção. Resultado: cartazes que chocam colegas de profissão e alimentam debates sobre ética na argumentação política. A campanha do Sì acaba assim por privilegiar o impacto visual em detrimento do esclarecimento cidadão — uma ponte entre poder e sociedade que deveria ser construída sobre informação, não sobre choque.
Não surpreende que a Associação Nacional Magistrados (ANM) e setores do centro-direita tenham reagido duramente a algumas peças em circulação — havia inclusive outdoors na estação central de Milão com mensagens sobre a independência dos juízes. Ao comparar a atuação do CSM a broncas domésticas e ao empregar a imagem de Beccaria fora de contexto, os cartazes ampliam a confusão entre forma e conteúdo da reforma proposta por figuras como Carlo Nordio e Giorgia Meloni.
Como repórter que observa a arquitetura do voto e o impacto das decisões de Roma na vida cotidiana, registro que campanhas assim corroem o debate público em vez de esclarecê-lo. A construção de direitos exige mais do que slogans: exige explicação, confrontação de argumentos e respeito às instituições. Se a propaganda do Sì pretende derrubar barreiras burocráticas, ao menos que não o faça erguendo paredes de incompreensão.
Em ambos os manifestos figura a hashtag que tem circulado: #lepiùbellefrasidiOsh — um toque final que, para críticos, confirma o tom mais viral que explicativo da campanha.