Skochilenko: “Excluir a Rússia da Biennale de Veneza não é ‘cancel culture’ — é ouvir a Ucrânia”

Skochilenko, ex-prisioneira russa exilada em Berlim, defende que excluir a Rússia da Biennale de Veneza é ouvir a Ucrânia, não cancel culture.

Skochilenko: “Excluir a Rússia da Biennale de Veneza não é ‘cancel culture’ — é ouvir a Ucrânia”

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Skochilenko: “Excluir a Rússia da Biennale de Veneza não é ‘cancel culture’ — é ouvir a Ucrânia”

Por Marco Severini — Em um movimento que reverbera como um lance cuidadoso num tabuleiro de xadrez geopolítico, a artista russa Aleksandra Skochilenko, hoje em exílio em Berlim, afirmou que pedir a não participação da Rússia na Biennale Arte Venezia “não é cancel culture, mas uma demanda que merece ser ouvida”. A declaração, concedida em entrevista à Espresso Italia, insere-se no debate mais amplo sobre as responsabilidades culturais em tempos de guerra e sobre os limites entre arte, propaganda e memória coletiva.

Skochilenko, 35 anos, foi condenada em novembro de 2023 a sete anos de prisão por inserir adesivos com informações sobre a "operação militar especial" nos rótulos de preços de um supermercado de São Petersburgo. Libertada após dois anos em colônia penal como parte de uma troca de prisioneiros realizada em 1º de agosto de 2024, ela vive agora na capital alemã e mantém uma postura reflexiva sobre o papel do artista diante da contemporaneidade.

Ao justificar sua posição, a artista lembrou o apelo de representantes ucranianos — entre eles o ministro das Relações Exteriores Andriy Sybiha e a ministra da Cultura Tetyana Berezhna — e sublinhou que “sofrimento e trauma exigem escuta”: “Se um ucraniano, que talvez tenha perdido um filho na guerra, se sentisse ofendido por uma exposição de um artista russo, eu, pessoalmente, estaria pronta a dar um passo atrás”.

Há nela uma postura que recusa rótulos fáceis. Skochilenko não se define como ativista; afirma, porém, que quem produz arte tem o dever de ocupar-se da contemporaneidade. Ao mesmo tempo, dirige uma crítica precisa aos artistas já inseridos em circuitos institucionais: aqueles que dispõem de visibilidade suficiente no projeto do pavilhão russo na Biennale poderiam, segundo ela, abdicar da participação como um gesto consciente, preservando, assim, a sensibilidade pública e evitando aprofundar feridas.

O gesto simbólico de Skochilenko não se limita ao discurso. Em Roma, na Villa Doria Pamphilj, participou da cerimônia promovida pela Fundação Gariwo, em colaboração com Roma Capitale e Memorial Italia, que dedicou dois olivais a ela e a Viktor Emil Frankl — figura que, sobrevivendo ao horror de Auschwitz, consolidou um testemunho sobre responsabilidade individual frente aos totalitarismos. A cena, arquitetada entre árvores e memória, reforça a metáfora: em tempos de tectônica de poder e redesenho de fronteiras invisíveis, as raízes simbólicas repousam em gestos de reparação.

Recuando à trajetória da artista, Skochilenko já havia produzido, em 2014, uma graphic novel sobre depressão e saúde mental, publicada primeiro em russo e depois em ucraniano. Quando a invasão começou em 2022, ela explica, atuou por motivos pessoais — muitos amigos e conhecidos na Ucrânia — e defende o direito de cada cidadão a formas de resistência, do protesto à ajuda prática, sem a necessidade de autodenominação como ativista.

Como analista que observa o tabuleiro com calma, considero a declaração de Skochilenko um movimento estratégico: longe de ser um ataque à liberdade artística, é uma proposta de responsabilidade institucional. Excluir a presença oficial de um Estado em um evento cultural mundial não é simplesmente silenciar vozes; é avaliar as consequências simbólicas e políticas de manter plataformas de prestígio abertas a atores cujo Estado está em guerra. Numa era em que a cultura opera tanto como soft power quanto como memória pública, pedir esse tipo de recuo é reconhecer que os alicerces da diplomacia cultural são frágeis e que decisões curatoriais têm efeitos além das salas de exposição.

Em suma: a voz de Skochilenko, forjada na experiência pessoal do cárcere e do exílio, propõe um ajuste de peças no jogo cultural internacional — um gesto que, apesar de difícil, pode evitar rupturas mais profundas na arquitetura das memórias coletivas.