Golfo concentra mais de 40% da água desalinizada do mundo e vira peça estratégica

Países do Golfo produzem 40% da água desalinizada mundial; Arábia Saudita lidera. Riscos estratégicos, energéticos e ambientais em foco.

Golfo concentra mais de 40% da água desalinizada do mundo e vira peça estratégica

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Golfo concentra mais de 40% da água desalinizada do mundo e vira peça estratégica

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de poder invisíveis no tabuleiro energético e hídrico global, os países do Conselho de Cooperação do Golfo respondem por mais de 40% da produção mundial de água desalinizada e abrigam cerca de 60% dos seus plantas no planeta. Esta vocação torna a região um vértice crítico da segurança humana e geopolítica, com implicações que vão muito além das praias e das plataformas.

Segundo o levantamento do Global Water Intelligence, a Arábia Saudita é hoje o maior produtor mundial de água dessalinizada, com 22,9 milhões de metros cúbicos por dia. Na sequência aparecem os Estados Unidos (15,5 milhões m³/dia) e a China (12,2 milhões m³/dia). Em termos de capacidade instalada, a Arábia Saudita lidera, seguida pelos Emirados Árabes Unidos, cuja malha de plantas fornece mais de 90% da água potável consumida pela população local — percentual equivalente ao de Kuwait. Em Omã, a desalinização responde por 86% do abastecimento; na Arábia Saudita, por cerca de 70%.

Esse policiamento da oferta transforma essas infraestruturas em alvos estratégicos: um ataque deliberado ou uma falha sistêmica coordenada poderia produzir uma crise humanitária imediata, afetando milhões. Num mundo onde os recursos hídricos são cada vez mais arma e refúgio, proteger plantas de desalinização é tão crucial quanto manter rotas de energia e abastecimento.

Do ponto de vista ambiental e energético, a conta também pesa. Os processos mais difundidos, como a osmose inversa, consumem entre 2,5 e 4,0 kWh por metro cúbico, dependendo da salinidade e do processo adotado. Tomando o exemplo da usina Ghubrah 3, em Omã — com capacidade de 300.000 m³/dia —, estima-se uma emissão mínima de 295 toneladas de CO2 por dia, cifra que o relatório compara à emissão anual de 69 automóveis a gasolina. São emissões e dependência energética que demandam planejamento estratégico de longo prazo, incluindo fontes de energia de baixo carbono e eficiência operacional.

Além do consumo energético, há riscos locais substanciais: plantas costeiras despejam salmoura concentrada que altera a temperatura e a salinidade do ecossistema marinho; instalações construídas no interior podem provocar infiltração salina em aquíferos por vazamentos nas condutas, comprometendo reservas subterrâneas essenciais.

No plano da estabilidade regional, portanto, a expansão da desalinização impõe um duplo desafio: garantir abastecimento e resilência sem ampliar a pegada ambiental nem criar pontos de falha estratégica. Em termos de geopolítica, proteger essas infraestruturas e diversificar fontes de energia tornam-se movimentos decisivos no grande tabuleiro onde se define a segurança humana do século XXI.