Exército dos EUA gastou US$ 9 milhões em patas de caranguejo e lagostas em fim de exercício

Pentágono gastou US$ 9 milhões em caranguejos e lagostas em setembro de 2025; análise revela problema estrutural no ciclo orçamentário militar.

Exército dos EUA gastou US$ 9 milhões em patas de caranguejo e lagostas em fim de exercício

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Exército dos EUA gastou US$ 9 milhões em patas de caranguejo e lagostas em fim de exercício

Por Marco Severini — Em uma movimentação que revela mais do que um simples problema de compras públicas, o Pentágono desembolsou cerca de US$ 9 milhões em patas de caranguejo e caudas de lagosta no mês de setembro de 2025, segundo levantamento do site investigativo Open the Books. Esse gasto integra um montante de aproximadamente US$ 93 bilhões consumidos apenas naquele mês fiscal.

A auditoria, publicada no início de março, detalha que cerca de US$ 2 milhões foram destinados a caranguejos-rei do Alasca e outros US$ 6,9 milhões a caudas de lagosta. Entre outros itens curiosos, foram registrados US$ 15,1 milhões em bistecas de carne bovina, US$ 124.000 para novas máquinas de sorvete e US$ 139.224 para encomendas de donuts. Em uma compra que chamou atenção, quase US$ 100.000 foram autorizados para um piano de cauda Steinway & Sons destinado à residência do chefe do Estado-Maior da Força Aérea.

O padrão explicado por especialistas em finanças públicas e pelos próprios documentos é a regra conhecida como "use-it-or-lose-it": recursos orçamentários não consumidos tendem a retornar ao Tesouro, expondo as agências a cortes nos exercícios posteriores. Como num relógio ao fim do ano fiscal — que nos EUA vai de outubro a setembro — o Departamento de Defesa acelera aquisições para não deixar verbas 'sobrar' e assim proteger seus tetos futuros.

Sob a administração do secretário à Defesa, Pete Hegseth — nomeado pelo presidente Donald Trump —, o relatório aponta que o departamento comprometeu cerca de US$ 90 bilhões em subsídios e contratos apenas naquele mês, um volume que supera os orçamentos anuais de estados-nação como Israel e Itália. Não se trata de episódio inédito: despesas semelhantes com lagostas já haviam sido detectadas em meados de 2025.

Como analista que observa a tectônica de poder nos bastidores, interpreto esses movimentos como uma combinação de rigidez orçamentária e lógica institucional: num tabuleiro em que cada peça procura proteger sua casa, decisões ostensivas de gasto comprimem margens políticas futuras. A compra de itens supérfluos ou extravagantes não é apenas um fenômeno de desperdício; é um sintoma da arquitetura orçamentária que incentiva a execução acelerada de despesas em detrimento de priorizações estratégicas.

Há implicações práticas e simbólicas. No plano prático, o uso ineficiente de fundos em bens de consumo eleva custos e fragiliza a confiança pública. No plano simbólico, a imagem de um Departamento de Defesa comprando iguarias caras e instrumentos de luxo contrasta com as prioridades de segurança nacional e com as expectativas de austeridade fiscal. Se o objetivo é manter uma máquina militar eficiente e legítima, os alicerces da diplomacia orçamentária precisam ser reconstruídos — em vez de apenas redesenhados no último movimento do relógio fiscal.

O caso exposto por Open the Books deverá alimentar debates no Congresso e em organismos de controle sobre a necessidade de reformas no ciclo orçamentário e em normas de aquisição. A interseção entre regras fiscais, incentivos institucionais e decisões de alto nível permanece, assim, um centro de gravidade para quem olha o tabuleiro estratégico com atenção.