Treccani lança dicionário das mulheres italianas: 650 biografias para o 8 de março

Treccani lança dicionário com 650 mulheres em 3 volumes; uma reescrita da história italiana para o 8 de março.

Treccani lança dicionário das mulheres italianas: 650 biografias para o 8 de março

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Treccani lança dicionário das mulheres italianas: 650 biografias para o 8 de março

Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece um espelho do nosso tempo, o Istituto della Enciclopedia Italiana Treccani publica, em ocasião do 8 de março, o monumental Dizionario biografico e tematico delle donne in Italia. São três volumes, mais de 2.500 páginas e cerca de 650 mulheres retratadas — uma cartografia afetiva e crítica da presença feminina na história, na cultura e na vida pública italiana.

A obra, dedicada a Rita Levi-Montalcini, atravessa três séculos e reúne perfis que vão da pedagogista revolucionária Maria Montessori às divas da cena internacional, como Maria Callas. Há figuras políticas decisivas — como Nilde Iotti, primeira mulher presidente da Câmara dos Deputados na Itália — e protagonistas menos lembradas, cuja vida revela o roteiro oculto da sociedade.

O dicionário celebra pioneiras que abriram espaços profissionais: Tina Anselmi, primeira mulher ministra; Pasqualina (Lina) Furlan, primeira penalista italiana a sair em defesa numa Corte d'assise; Maria Silvia Spolato, precursora da visibilidade lésbica e do movimento LGBTQIA+ na península; Ninì Pietrasanta, ligada às primeiras conquistas alpinas; Gae Aulenti, voz feminina na arquitetura; Emma Strada, primeira engenheira; Lidia Poët, primeira mulher inscrita na ordem dos advogados; além de corajosas partigianas e atletas como Ondina Peteani e Ondina Valla.

Mas o volume também é um convite à redescoberta: dezenas de mulheres cujas contribuições culturais e econômicas moldaram o país. Entre elas, Severina Parodi (Accademia della Crusca), Fernanda Pivano (responsável por introduzir grandes autores norte-americanos), Luisa Spagnoli (empreendedora e inovadora industrial), e criadoras da cultura popular como Angela e Giuliana Giussani, mães de Diabolik. O acervo inclui ainda nomes do universo das artes e do espectáculo: Giuni Russo, Franca Valeri, Tina Pica, Andreina Pagnani, Renata Tebaldi, Raffaella Carrà, Milva (Maria Ilva Biolcati) e Carla Fracci.

Como analista cultural, vejo esse lançamento como mais do que um repertório: é um reframe da história italiana sob o prisma feminino, uma semiótica do que foi ocultado e do que persiste em ser recontado. A escolha de dedicar a obra a Rita Levi-Montalcini é simbólica — neurológica e narrativa: remete ao trabalho de memória, às sinapses entre passado e presente, e ao modo como figuras individuais iluminam redes maiores de ação social.

O Dizionario não é apenas um catálogo de biografias; é um convite para decifrar o eco cultural que essas vidas ainda produzem — na política, nas artes, na ciência, na indústria e no imaginário coletivo. Em tempos em que as disputas pelo significado da história ganham palco, ter à disposição um compêndio assim é, sobretudo, uma ferramenta crítica: permite reescrever e reapresentar o cânone, questionando o que ficou fora do enquadramento oficial.

Três volumes, seiscentas e cinquenta histórias, e milhares de detalhes que se entrelaçam como cenas de um filme — cada perfil é um take que, junto aos demais, compõe o roteiro complexo da Itália. Para quem pensa o 8 de março como data de celebração, este lançamento oferece também a oportunidade de mirar além do afeto e encarar a perspetiva histórica: entender como as mulheres ajudaram a moldar instituições, práticas culturais e o tecido social do país.

O conjunto estará disponível a partir de 8 de março pelo Istituto della Enciclopedia Italiana Treccani, prometendo se tornar referência obrigatória para pesquisadoras, estudantes e leitores interessados no roteiro — visível e invisível — das mulheres na história italiana.