Ring Circus na La Scala: quando o Anel de Wagner vira espetáculo circense-fantástico

Na La Scala, o "Ring Circus" reinventa o Anel de Wagner com acrobatas, próteses hi‑tech e direção física de David Greeves.

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Ring Circus na La Scala: quando o Anel de Wagner vira espetáculo circense-fantástico

Por Chiara Lombardi — A La Scala se transforma em arena mitológica: o Ring Circus traz ao palco uma fusão ousada entre o épico wagneriano e a estética circense. Em cartaz estão os dois ciclos completos do Anel dos Nibelungos, cada um com cerca de 16 horas, e uma plateia que não deixou cadeiras vazias — cerca de 2.400 assinaturas vendidas e público vindo de mais de 60 países para acompanhar essa maratona musical.

Depois das primeiras apresentações sob a batuta de Alexander Soddy, agora é a vez de Simone Young conduzir a saga: uma chance imperdível para colecionadores de Anéis e para quem busca a famosa "música do porvir" de Wagner num cenário radicalmente reimaginado.

Assinado pelo diretor escénico David McVicar, com cenas de Hannah Postlethwaite e figurinos de Emma Kingsbury, o espetáculo incorpora pela primeira vez na Scala um mestre de artes marciais e circenses: David Greeves. Especialista em técnicas aéreas, boxe tailandês, Kung Fu, Tai Chi e espada japonesa, Greeves trouxe ao palco um vocabulário de movimento que cruza Bollywood, circo e teatro lírico.

Antes mesmo de a saga começar, Greeves ministrou um workshop inédito para cantores, dançarinos, mímicos e figurantes, preparando-os para provas físicas pouco convencionais: caminhar sobre trampolins e pernas de pau, manipular espadas e bastões em voo, e dar vida a criaturas híbridas que evocam Avatar, O Senhor dos Anéis e Game of Thrones. É como se o imaginário wagneriano, antecipador de tantas narrativas contemporâneas, encontrasse seu eco no palco através de uma semiótica do viral.

O elenco conta com cerca de cinquenta papéis — quatro femininos, o restante masculinos — compilados com precisão por Marco Monzini, diretor colaborador, e Federica Stefani, assistente de direção, encarregados de orquestrar o complexo mecanismo da maratona.

Entre os pontos altos da encenação está a entrada em cena de cavalos antropomorfos: cerca de vinte mímicos com cabeças equinas e patas de titânio, concebidas como próteses hi-tech — as mesmas usadas por atletas paralímpicos — que exigem calçados especiais, joelheiras e amarrações firmes. Construídas para correr, a maior dificuldade não é locomover-se nelas, mas manter-se imóvel; o equilíbrio demanda um constante pequeno salto, criando uma coreografia de mutantes saltitantes que lembram um filme de Cronenberg.

A Cavalcada das Valquírias transforma-se numa passarela de seres alterados, onde o rito guerreiro vira espetáculo acrobático. Até os gigantes Fasolt e Fafner forçaram adaptações: cantores passaram por treinamento específico para dominar as pernas de pau. "Aprender a andar sobre elas é como andar de bicicleta — uma vez aprendido, não se esquece", comentam os envolvidos.

O dragão, por sua vez, ganha vida através de soluções técnicas e criativas que reforçam a sensação de criatura híbrida entre o animatrônico e o corpo humano em cena — um monstro que respira tradição wagneriana e techné contemporânea.

O Ring Circus da La Scala não é apenas espetáculo; é um reframe do épico, um espelho do nosso tempo em que o rito operístico se entrelaça com o espetáculo físico do circo moderno. Aqui, o palco vira ringue e picadeiro, e a música continua sendo o fio que tece o cenário de transformação.