Violência contra as mulheres: na Itália, forte gap entre vítimas e acolhimento pelos serviços públicos

Estudo na Lancet aponta gap na Itália entre mulheres vítimas de violência e acolhimento pelos serviços públicos; saúde identifica apenas 1,3%-5,6%.

Violência contra as mulheres: na Itália, forte gap entre vítimas e acolhimento pelos serviços públicos

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Violência contra as mulheres: na Itália, forte gap entre vítimas e acolhimento pelos serviços públicos

Por Alessandro Vittorio Romano — Observando a cidade como um mapa de respirações e silêncios, percebo que, por trás das praças e dos cafés, existe uma realidade que não encontra espaço nos corredores institucionais. Um estudo publicado na Lancet Global Health revela que, apesar de um quadro legislativo articulado, a Itália apresenta um reconhecimento e uma resposta à violência contra as mulheres ainda limitados, fragmentados e desiguais ao longo do território.

A pesquisa analisou oito países, incluindo a Itália, e evidencia um gap marcante entre o número de mulheres que sofrem violência e aquelas que conseguem ser formalmente reconhecidas e tomadas em carga pelos serviços públicos. Em linguagem menos técnica e mais humana: muitas mulheres continuam fora do alcance das redes de apoio, suas necessidades não colhidas no tempo certo, como uma colheita que escapa às mãos dos agricultores.

Um dado que corta o ruído é o papel do setor de saúde na identificação desses casos. Nos quatro países que reportaram dados sanitários — entre eles a Itália — o reconhecimento formal da violência praticada pelo parceiro através dos serviços de saúde corresponde a apenas cerca de 1,3% a 5,6% do que seria estimado como necessidade. Em outras palavras, o sistema de saúde captura uma fração muito pequena das mulheres que, segundo estimativas, precisariam de intervenção.

As estimativas do Global Burden of Disease 2021 utilizadas no estudo apontam que a prevalência de violência física e/ou sexual perpetrada pelo parceiro nos últimos 12 meses na Itália é de aproximadamente 5,4% entre mulheres de 15 anos ou mais. Mesmo com leis e dispositivos em vigor, a resposta concreta — o caminho que leva da denúncia ao acolhimento efetivo — permanece desigual, muitas vezes dependendo de onde a mulher vive, do acesso aos serviços locais e da coordenação entre setores.

Como quem caminha por vielas onde a luz entra apenas por frestas, observo que a fragmentação dos serviços cria bolsões de invisibilidade. Há centros que oferecem acolhimento qualificado, linhas de assistência e redes integradas; em outras áreas, a oferta é esparsa ou inexistente. Essa descontinuidade significa que a jornada da vítima em busca de proteção e recuperação é frequentemente solitária e cheia de obstáculos administrativos e culturais.

Não se trata apenas de estatística: trata-se do tempo interno do corpo que tarda a curar, das decisões tomadas ao som do trânsito, do inverno da mente que precisa de calor humano e de caminhos concretos para sair da violência. A experiência italiana, segundo o estudo, exige não só reformas legislativas, mas investimentos em capacitação dos profissionais de saúde, protocolos claros de identificação e encaminhamento, e uma visão territorial que una as raízes do bem-estar social.

Ao final, a chamada é para semear práticas que transformem essa paisagem: fortalecer a formação dos profissionais de saúde, integrar os serviços sociais e judiciais e garantir que as mulheres encontrem — em qualquer praça, clínica ou hospital — um acolhimento que reconheça sua dor e a transforme em proteção efetiva. Só assim a cidade poderá respirar mais tranquila e o corpo social recuperar sua harmonia.