Burocracia consome metade do tempo dos oncologistas nas consultas, aponta estudo

Estudo do Cipomo mostra que a burocracia ocupa até 50% do tempo dos oncologistas, reduzindo a atenção na primeira visita e tarefas delegáveis.

Burocracia consome metade do tempo dos oncologistas nas consultas, aponta estudo

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Burocracia consome metade do tempo dos oncologistas nas consultas, aponta estudo

Por Alessandro Vittorio Romano — Em um cenário onde a confiança entre médico e paciente deveria ser cultivada como um pomar ao longo das estações, a burocracia age como uma geada inesperada que reduz o tempo dedicado ao essencial. Uma análise do Cipomo (Colégio dos Chefes de Oncologia Hospitalar) revela que quase metade do tempo de trabalho dos oncologistas está sendo consumido por tarefas administrativas, e não pela relação clínica com quem enfrenta um câncer.

Os dados mapeados em 24 fichas representativas de 12 regiões italianas mostram que, das 38 horas semanais de trabalho dos médicos, até 50% — cerca de 19 horas — são ocupadas por atividades como preenchimento de formulários, inserção de dados cadastrais e navegação em softwares fragmentados. Esse tempo 'roubado' compromete sobretudo a primeira visita, momento decisivo para iniciar o vínculo de confiança entre paciente e oncologista.

O estudo destaca que quase 90% dos médicos consideram essas tarefas claramente delegáveis. Entre as atividades apontadas está a complexa fase de inserção de informações nas Schede AIFA, os registros de monitoramento geridos pela Agência Italiana do Medicamento para acompanhar o uso de medicamentos específicos. Antes mesmo da consulta propriamente dita, o levantamento mostra que 86,1% das pré-atividades — como verificação da documentação clínica, coleta de dados demográficos e gestão preliminar dos consentimentos — poderiam ser reorganizadas ou atribuídas a outros profissionais para devolver o tempo médico ao contato humano.

Como observador atento das paisagens da saúde, percebo que esse é um problema de solo: a estrutura organizacional e tecnológica precisa ser adubada para que floresça a atenção centrada na pessoa. A fragmentação dos sistemas informáticos e os processos redundantes funcionam como ervas daninhas, desgastando a disponibilidade do oncologista e diminuindo a profundidade da escuta clínica.

Restituir horas aos profissionais não é apenas uma questão de eficiência logística, mas de qualidade de vida para o paciente e de sustentabilidade do cuidado. Quando a burocracia ocupa metade do tempo de um especialista, perde-se a riqueza dos detalhes — olhares, perguntas, aquele silêncio que permite ao paciente contar sua história.

As soluções apontadas pelos próprios médicos passam pela delegação qualificada, digitalização otimizada e integração dos sistemas de informação, além de processos administrativos centralizados que aliviem o fluxo clínico. A aposta é reorganizar a jornada de trabalho como quem planeja uma colheita: redistribuir tarefas, plantar rotinas claras e colher tempo para o que importa.

Em suma, o diagnóstico é nítido: sem intervenção organizativa, a burocracia continuará a ser a sombra que diminui a presença do oncologista ao lado do paciente. E essa ausência, por mais que se esconda atrás de formulários bem preenchidos, se sente no corpo e na alma de quem busca cuidado.