O retorno da energia nuclear: em Paris, cúpula internacional busca relançar o atomo civil
Cúpula em Paris busca relançar a energia nuclear civil como resposta à crise energética, com 40 países, Macron, Von der Leyen e críticas de ambientalistas.
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O retorno da energia nuclear: em Paris, cúpula internacional busca relançar o atomo civil
Por Aurora Bellini — Às margens do Sena, na Seine Musicale, abriu-se hoje o segundo encontro internacional dedicado ao nuclear civil, um movimento que busca relançar a energia nuclear como peça-chave para a indústria, a segurança energética e as metas climáticas. Organizado pela França — país que opera 57 reatores e se posiciona como líder no setor —, o summit reúne delegações de quarenta nações, incluindo os gigantes EUA e China, além da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. A Rússia permanece ausente, isolada pelo conflito na Ucrânia. Pela Itália, participou o ministro do Meio Ambiente e da Segurança Energética, Gilberto Pichetto Fratin.
Em seu discurso de abertura, o presidente francês, Emmanuel Macron, fez um apelo claro a “cada ator público e privado” para que contribuam com recursos e compromisso, instando bancos e fundos de investimento — em especial fundos de venture capital — a apoiarem projetos nucleares. Macron apresentou o setor como um “verdadeiro campo de futuro” para as energias e para as sociedades, propondo que a Europa siga exemplos como o do Reino Unido e se disponha a avançar mais longe na aposta pelo átomo.
O evento, no entanto, não esteve isento de tensões: dois ativistas do movimento ambiental vestiram-se de preto, com gravata, e interromperam a cerimônia exibindo faixas com o logotipo do Greenpeace e mensagens como "Energia nuclear = insegurança energética" e "O nuclear financia a guerra da Rússia". A ação ocorreu no momento em que as autoridades, incluindo o chefe da vigilância atômica, eram recebidas no palco.
Do ponto de vista técnico e estratégico, o encontro sinaliza uma nova dinâmica global. Após o desaquecimento das ambições nucleares pós-Fukushima, a tecnologia vive um renascimento. Hoje o átomo responde por cerca de 10% da eletricidade mundial em torno de 450 reatores; a nova 'road map' até 2050 visa expandir essa capacidade substancialmente. O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, afirmou que outros quarenta países manifestaram interesse firme em adotar tecnologia nuclear, em consonância com o compromisso firmado na COP28 de Dubai de triplicar a capacidade atômica global até meados do século.
A intervenção de Ursula von der Leyen foi incisiva ao conectar a discussão energética à competitividade industrial europeia: preços estruturais elevados da eletricidade colocam em risco a economia do continente, disse a presidente, lembrando que a dependência de importações de hidrocarbonetos — exacerbada por tensões geopolíticas, como as recentes no Oriente Médio — revela uma vulnerabilidade crônica. Para von der Leyen, uma eletricidade mais acessível e previsível é condição para manter indústrias e empregos na Europa.
As propostas no encontro abarcaram desde financiamento e governança até inovação tecnológica, incluindo a discussão sobre pequenos reatores modulares (SMRs) e maior integração entre políticas climáticas e segurança energética. Em muitas falas, o tom foi de pragmatismo: reconhecer riscos, fortalecer vigilância e regulação, e, ao mesmo tempo, iluminar novos caminhos para assegurar energia limpa e confiável.
Como curadora de progresso pela Espresso Italia, vejo neste movimento uma oportunidade para semear inovação responsável: o desafio é equilibrar segurança, transparência e financiamento para que o retorno do nuclear civil produza um legado real de energia decarbonizada e indústrias resilientes. A cúpula de Paris não apaga os dilemas — técnicos, políticos e sociais —, mas acendem uma tocha para que países, investidores e sociedade civil teçam laços e construam um horizonte límpido para as próximas décadas.