Quem foi El Mencho: o estrategista do CJNG que redesenhou o tabuleiro do crime no México

Biografia e impacto de El Mencho, chefe do CJNG abatido; ascensão do cartel, táticas militares e consequências geopolíticas.

Quem foi El Mencho: o estrategista do CJNG que redesenhou o tabuleiro do crime no México

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Quem foi El Mencho: o estrategista do CJNG que redesenhou o tabuleiro do crime no México

Por Marco Severini — A eliminação de El Mencho pelas forças especiais mexicanas representa um movimento decisivo no tabuleiro da segurança hemisférica. Conhecido oficialmente como Nemesio Rubén Oseguera Cervantes, ele foi cofundador e líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), organização que nas últimas décadas ascendeu ao centro da tectônica do poder ilícito no México.

O episódio marca um ponto de inflexão na longa e sangrenta guerra entre o Estado e as organizações do narcotráfico. Menos midiático no cenário internacional do que o antigo ícone do Cartel de Sinaloa, o CJNG consolidou, em território nacional, uma reputação de terror através de demonstrações de força brutais, um arsenal de tipo militar e táticas que elevaram a intensidade do confronto com as instituições.

Com base no estado de Jalisco, o grupo se distinguiu pela audácia operacional. Em 2015, durante uma tentativa de captura de El Mencho, membros do cartelo derrubaram um helicóptero militar com um lança-foguetes — fato que remodelou a percepção sobre a capacidade bélica da organização. Nos anos seguintes, houve relatos consistentes de uso de drones para entrega de explosivos e de unidades paramilitares treinadas para operações urbanas e rurais, técnicas que mais parecem um ensaio de guerra híbrida do que um mero crime organizado.

Em 2020, o CJNG demonstrou sua disposição para atingir o núcleo das instituições ao executar um atentado no centro da Cidade do México contra o então chefe da polícia capitalina — hoje responsável federal pela segurança — utilizando granadas e armamento de alto calibre. Tal ação expôs alicerces frágeis da diplomacia interna e a capacidade do grupo de infligir impacto simbólico em praças centrais do poder.

Autoridades mexicanas e norte-americanas, inclusive a DEA, passaram a considerar o CJNG comparável ao Cartel de Sinaloa em termos de alcance e influência. A presença do grupo foi mapeada em todos os 50 estados dos EUA, e seu papel no tráfico transfronteiriço é central: fornecedores de cocaína e, sobretudo, produtores e distribuidores de fentanil e metanfetaminas — substâncias que alimentaram uma crise sanitária mortal em solo americano.

O vácuo criado pelas disputas internas e pelos golpes à liderança do Cartel de Sinaloa — notadamente as prisões e neutralizações de figuras como Joaquín "El Chapo" Guzmán e a ação sobre Ismael "El Mayo" Zambada — foi uma oportunidade estratégica que o CJNG explorou com eficácia, expandindo territórios, redes logísticas e capacidade de intimidação.

Sobre a biografia de El Mencho: nascido em Aguililla, no estado de Michoacán, Nemesio Rubén Oseguera Cervantes ingressou no universo do narcotráfico nos anos 1990. Emigrou para os Estados Unidos, onde teve passagens pela justiça federal; já na trajetória de retorno ao México, consolidou-se como um organizador capaz de transformar estruturas criminosas em uma máquina de guerra económica e territorial.

A morte de El Mencho não encerra a complexidade do problema. Assim como em um jogo de xadrez, a retirada de uma peça chave modifica o tabuleiro: abre-se espaço para lutas internas, realinhamentos e possivelmente para a emergência de novas lideranças que tentarão preencher o vácuo. O risco de redistribuição violenta do poder é real, e a estabilidade futura dependerá de políticas públicas coordenadas, de uma diplomacia estratégica entre Washington e Cidade do México e de medidas que ataquem tanto as fontes de financiamento quanto as redes logísticas transnacionais.

Do ponto de vista geopolítico, o episódio demonstra que o Estado mexicano foi capaz de executar um golpe cirúrgico; porém, a natureza enraizada e corporativa do tráfico moderno — com seus tentáculos financeiros e industriais — exige respostas de longo prazo. A arena agora é menos sobre a eliminação de líderes e mais sobre o redesenho de fronteiras invisíveis que vinculam produção, distribuição e consumo.

Em suma, a queda de El Mencho é uma jogada relevante no tabuleiro, mas não garante imediatamente a pacificação. O desafio para o Estado e para a comunidade internacional é reconstruir alicerces institucionais suficientes para prevenir que o espaço estratégico seja ocupado por outras peças, igualmente perigosas.