Paris reúne 57 países na cúpula para relançar o nuclear civil e reforçar a soberania energética
Paris reúne países em cúpula para relançar o nuclear civil e fortalecer a soberania energética com foco em financiamento e SMR.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Paris reúne 57 países na cúpula para relançar o nuclear civil e reforçar a soberania energética
Por Marco Severini — Em Paris, Emmanuel Macron anfitria uma reunião que representa um movimento estratégico no tabuleiro internacional: cerca de quarenta representantes de países e organizações se encontram no segundo vertice nuclear dedicado a relançar o nuclear civil como instrumento de soberania energética. A iniciativa ocorre em um momento em que a guerra no Médio Oriente expõe os alicerces frágeis das economias dependentes de combustíveis fósseis e quando os ministros da energia do G7 se reúnem às 13h45 na capital para discutir a recente escalada dos preços do petróleo.
Organizado pela França — país que dispõe de 57 reatores e figura entre as principais potências do nuclear civil —, o encontro congrega cerca de quarenta Estados e organismos internacionais, incluindo delegações de Estados Unidos e China, atores históricos e decisivos neste setor. A cúpula, em colaboração com a AIEA (Agência Internacional para a Energia Atômica), sucede à edição inaugural de Bruxelas em 2024 e se realiza em 2026, ano marcado pelos 15 anos do acidente de Fukushima e pelos 40 anos do desastre de Chernobyl.
O propósito declarado é identificar medidas práticas para uma renovação do nuclear que seja simultaneamente segura e acessível. No cerne da discussão está a questão do financiamento: programas nucleares costumam ser longos, custosos e sujeitos a atrasos. O Palácio do Eliseu tem sido enfático ao afirmar que, além de recursos públicos e do envolvimento de bancos multilaterais de desenvolvimento — como o Banco Mundial —, será imprescindível mobilizar atores privados para viabilizar a multiplicidade de projetos necessários.
Paris aspira converter este encontro em um avanço político que supere a declaração da COP28 em Dubai, que estabeleceu a meta de triplicar a capacidade nuclear instalada até 2050 — um roteiro já subscrito por cerca de trinta países. Espera-se que outros Estados se alinhem à trajetória proposta. No mesmo espírito, a União Europeia prevê divulgar sua estratégia para acelerar o desenvolvimento de reatores modulares pequenos (SMR) na Europa, com um objetivo ambicioso de comercialização inicial até 2030.
Há um sentido de urgência técnico-político: Bruxelas teme perder terreno para os programas acelerados da China e dos Estados Unidos e pretende fomentar a cooperação entre startups e indústrias europeias para não ficar relegada na corrida por inovação e cadeia de suprimentos no setor nuclear.
Hoje, o nuclear corresponde a aproximadamente 10% da produção mundial de eletricidade, com cerca de 450 reatores operando em uma trintena de países. Segundo o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, outras quarenta nações expressaram nos últimos anos interesse em reatar ou construir programas nucleares, sinalizando uma tectônica de poder energético em transformação.
Do ponto de vista estratégico, o impulso a reatores tradicionais e a SMR não é apenas técnica; é cartografia de influência. Países que consolidam capacidades nucleares adquirem margem de manobra política e resiliência econômica. A reativação do setor, impulsionada pela necessidade de descarbonizar a matriz energética e pelas demandas energéticas de tecnologias intensivas — como a inteligência artificial —, desenha um novo eixo de influência onde a energia torna-se moeda de soberania.
Este segundo encontro em Paris não é uma mera conferência técnica: é um movimento diplomático pensado para redesenhar fronteiras invisíveis de poder energético, combinando financiamento, segurança, governança e inovação. As decisões que emergirem daqui terão efeitos duradouros sobre como Estados planejam suas estratégias de longo prazo no tabuleiro global.
Assina: Marco Severini