Franco Battiato: o biopic que prefere a viagem interior ao êxtase do mito

O biopic de Franco Battiato busca a viagem interior do cantor; Dario Aita interpreta Battiato em proposta sensorial e reflexiva.

Franco Battiato: o biopic que prefere a viagem interior ao êxtase do mito

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Franco Battiato: o biopic que prefere a viagem interior ao êxtase do mito

Franco Battiato sempre foi um espelho do nosso tempo: artista que misturou erudição e pop, tradição e invenção, transformando fragmentos em melodias que pareciam diálogos com outro plano. Em Franco Battiato - Il lungo viaggio, o diretor Renato De Maria e a roteirista Monica Rametta propõem um percurso cinematográfico que acompanha a trajetória do cantautor desde a Sicília até a efervescente Milão dos anos 1970, retornando depois à terra natal. A transmissão na Rai1 traz à tela um homem e uma paisagem cultural que sempre souberam ser, ao mesmo tempo, íntimos e enigmáticos.

No centro dessa ficção-biográfica está Dario Aita, que encarna o músico com um trabalho mimético preciso. Ainda assim, a ambição do filme é outra: não celebrar o carisma exterior, mas mapear uma espécie de viagem interior. Esse gesto, nobre e arriscado, revela os limites do biopic quando a profundidade é mais verbal do que cinematográfica — como se o roteiro preferisse explicar os estados de espírito em diálogo em vez de deixá-los emergir através da escrita visual, da atuação contida ou do corte do montage.

Há momentos de acerto sensorial: cores ácidas, distorções visuais e artifícios estéticos que sugerem introspecção. Contudo, sempre que a narrativa toca terrenos reconhecíveis — a casa de Giorgio Gaber, os bastidores das gravadoras, os laços com editoras — o filme tende a escorregar para um tom de comédia não intencional. A relação insistente com a amiga Fleur (interpretada por Elena Radonicich) chega a picos de comicidade involuntária, e isso fragiliza o equilíbrio entre reverência biográfica e franqueza dramatúrgica.

Curiosamente, a obra opta por omitir um capítulo crucial da produção artística de Battiato: a longa e profícua colaboração com o filósofo Manlio Sgalambro, figura que marcou profundamente as etapas conceituais do cantor. A ausência desse fragmento deixa uma lacuna no mapa intelectual apresentado, como se o roteiro quisesse enfatizar uma linha narrativa mais íntima e afetiva do que a complexa parceria intelectual que moldou parte do repertório.

Entre as pequenas coincidências e ironias que a cultura vira e mexe proporciona, vale recordar que "La cura" (1996) — escrita para a amiga Fleur e que atravessou décadas como trilha sonora de tantos casamentos — hoje convive com repertórios populares de outras gerações, numa espécie de refrão que se reinventa. O biopic busca, então, não tanto a cronologia cronista, mas um reframe da memória do artista: o que o torna universal não é apenas o rastro de hits, mas o enigma que insiste em permanecer entre as linhas.

Como analista cultural, vejo no filme de De Maria uma proposta interessante — menos biografia factual do que tentativa de cartografar um espírito artístico. É um trabalho que, como uma fotografia granulada, privilegia o close-up emocional em detrimento da panorâmica histórica. Para quem busca o roteiro oculto da sociedade através da obra de Battiato, o filme oferece pistas e refletidos; para quem queria um compêndio documental, pode frustrar.

Franco Battiato - Il lungo viaggio é, portanto, um convite ao espectador: decifrar o que é dito entre as falas, ler a melodiosa superfície à procura do que permanece indecifrável. E, como em todo bom espelho cultural, a obra nos devolve não só a imagem do artista, mas também o sinal dos nossos próprios anseios por sentido.

Data: 2 de março de 2026 | Emissora: Rai1