Preços do petróleo disparam mesmo após liberação recorde de 400 milhões de barris pela AIE
Preços do petróleo disparam mesmo após liberação recorde de 400 milhões de barris pela AIE; riscos no Estreito de Hormuz mantêm oferta pressionada.
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Preços do petróleo disparam mesmo após liberação recorde de 400 milhões de barris pela AIE
Por Stella Ferrari — Os preços do petróleo retomaram a trajetória de alta apesar do anúncio, ontem, da AIE sobre a liberação recorde de 400 milhões de barris das reservas estratégicas. O Brent se aproxima dos 100 dólares por barril (cerca de 98 dólares, +6,5%), enquanto o WTI opera na casa dos 93 dólares por barril (+6,4%).
O estímulo coordenado pela Agência Internacional de Energia apareceu insuficiente para o mercado, que está mais preocupado com a possibilidade de que o conflito no Oriente Médio se prolongue — um cenário que contrasta com as previsões otimistas do presidente dos EUA sobre uma resolução rápida. Antes mesmo da confirmação formal da operação, a mera expectativa do desbloqueio de 400 milhões de barris já havia contribuído para algum alívio nos preços no começo da semana, quando o Brent chegou a oscilar perto de 120 dólares.
No entanto, a dinâmica de oferta voltou a apertar: os ataques às infraestruturas petrolíferas no Golfo se intensificaram e o bloqueio iraniano do Estreito de Hormuz obrigou países da região a cortar produção de petróleo, exacerbando as preocupações com o abastecimento enquanto a guerra continua. A própria AIE qualificou o volume liberado pelos 32 países membros como o maior da sua história.
Os Estados Unidos, que são simultaneamente o maior consumidor e produtor global de petróleo, planejam liberar gradualmente 172 milhões de barris ao longo de três meses — o equivalente a cerca de 1,4 milhão de barris por dia para o país. Analistas do ING estimam que, se os demais países seguirem um cronograma semelhante, o impacto agregaria algo como 3,3 milhões de barris por dia — uma correção importante, porém descrita por especialistas como uma "gota no oceano" frente à magnitude do choque.
Arne Lohmann Rasmussen, analista da Global Risk Management, foi categórico: a medida alivia parcialmente a pressão, mas não neutraliza o risco estrutural imposto pelo conflito. Segundo a AIE, os países do Golfo estão reduzindo atualmente sua produção em pelo menos 10 milhões de barris por dia devido ao bloqueio do Estreito — a interrupção mais significativa nas exportações de petróleo registrada pela agência.
Em resposta a ataques israelenses e americanos, o Irã tem mirado as rotas de trânsito no Estreito de Hormuz, responsável por cerca de 20% da produção petrolífera mundial que normalmente atravessa a passagem. Essas ações já geram "reduções significativas da oferta", com impactos diretos sobre o petróleo exportado por Iraque, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
Países incapazes de escoar sua produção e com capacidade de armazenamento limitada foram forçados a reduzir os volumes extraídos. Paralelamente, os danos às infraestruturas seguem se acumulando: o Bahrein relatou um ataque adicional iraniano a tanques de armazenamento de hidrocarbonetos durante a noite; em Omã, tanques de combustível no porto de Salalah pegaram fogo após um ataque por drone; e a Arábia Saudita informou um ataque por drone ao campo petrolífero de Shaybah, no leste do país.
Do ponto de vista macroeconômico, estamos diante de uma calibragem delicada: a liberação das reservas atua como um freio temporário, mas não substitui a resolução das rupturas físicas na cadeia de oferta. Em termos de política e mercado, a situação exige combinações de medidas — uma engenharia de resposta — que contemplem tanto a liquidez imediata quanto a segurança logística de longo prazo. Enquanto isso, o motor da economia global sente a aceleração das tensões geopolíticas, e investidores reajustam risco e portfólios em tempo real.
Em suma, a injeção extraordinária de barris pela AIE altera o fluxo, mas não redefine a rota: os riscos subsistentes no Golfo mantêm os preços sensíveis a novos episódios de violência e a possível escalada do conflito.