Anna Bisogno e a era da televisão expandida: entre plataformas, redes sociais e inteligência artificial

Anna Bisogno analisa a 'televisão expandida' entre plataformas, redes sociais e IA; um olhar crítico sobre como mudam autoria, formato e participação.

Anna Bisogno e a era da televisão expandida: entre plataformas, redes sociais e inteligência artificial

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Anna Bisogno e a era da televisão expandida: entre plataformas, redes sociais e inteligência artificial

Por Chiara Lombardi — Em um ensaio publicado pela editora Carocci, a pesquisadora e docente Anna Bisogno traça um mapa crítico da transformação do pequeno ecrã: não se trata de um desaparecimento, mas de uma migração e de uma metamorfose. A televisão expandida — ou «Tv espansa», como intitula o livro (Tv espansa. Piattaforme, social network, Ia) — passa a habitar ecossistemas digitais onde plataformas, algoritmos e comunidades conectadas reescrevem o papel do espectador.

Bisogno, professora na Universitas Mercatorum, onde leciona Cinema, Rádio e Televisão, constrói uma genealogia que vai da paleotelevisão pedagógica à neotelevisão dialogante — termos que remetem às transformações do século XX e do século XXI. Evocando Eco (1983) e outros marcos teóricos, a autora destaca a trajetória que levou do modelo centralizado do serviço público ao sistema competitivo das redes comerciais, até a atual fase digital: um ambiente heterogêneo em que a televisão se mistura com os códigos dos social networks, fragmenta-se em clipes, reconstrói-se como meme e prolifera em formatos digitais.

Se no passado a programação era linear e orientada por uma grade, hoje os dados e a inteligência artificial entram no fluxo criativo: arquivam, recomendam, personalizam gostos. É uma televisão expandida que constrói arquivos infinitos, direciona ritmos e formatos e reconfigura autoria. Os algoritmos, observa Bisogno, deixam de ser simples ferramentas para se tornar coautores implícitos das narrativas, moldando o que vemos e, sobretudo, como vemos.

Na análise da autora, a televisão italiana exemplifica essa osmorose entre meios: a linha tradicional convive hoje em diálogo constante com plataformas e redes sociais, gerando uma experiência de visionamento contínua e compartilhada. A participação do público muda: passa de ritual coletivo marcado por horários para um engajamento em tempo real, híbrido e por vezes fragmentado. O efeito é um arquipélago de práticas culturais onde se mesclam experimentações estéticas e mecanismos de controle, inclusão e exclusão.

Como observadora do nosso tempo, Bisogno não romantiza nem demoniza: descreve uma paisagem cultural estratificada e contraditória — uma espécie de roteiro oculto da sociedade onde convivem possibilidades democráticas de visibilidade e novas formas de desigualdade algorítmica. Em outras palavras, a televisão expandida é simultaneamente um espelho do nosso tempo e um dispositivo que reconfigura memórias, identidades e hábitos coletivos.

Para quem estuda mídia, cultura e a semiótica do viral, o livro oferece ferramentas para ler esse cenário de transformação: entender os fluxos entre emissoras, plataformas e redes sociais é essencial para decifrar como se constrói hoje o imaginário público. A proposta de Bisogno é clara e provocativa: ao olhar para a televisão como um ecossistema em expansão, ganhamos a chance de questionar quem escreve as narrativas e com que fins — seja para experimentar esteticamente, seja para capturar audiências em mercados cada vez mais datafocados.

Em suma, Tv espansa é um convite a observar o panorama audiovisual com um olhar crítico e refinado: como em um filme que nos devolve o mundo em close-up, o livro nos convida a ver os contornos dessa nova paisagem midiática e a perguntar não apenas o que mudou, mas por que essas mudanças importam para nossa memória coletiva e para as formas de participação cultural.