Morrissey volta à Itália: ressurgimento, controvérsias e os ecos dos Smiths em Milão

Morrissey retorna a Milão entre triunfos britânicos, controvérsias e memória dos Smiths: uma ressurreição ambígua que continua a fascinar.

Morrissey volta à Itália: ressurgimento, controvérsias e os ecos dos Smiths em Milão

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Morrissey volta à Itália: ressurgimento, controvérsias e os ecos dos Smiths em Milão

Por Chiara Lombardi — Depois de um hiato polêmico, Morrissey retornou à Itália para uma noite que juntou reverência e inquietação. Poucos meses após o concerto memorável no Vittoriale, às margens do Lago de Garda, o cantor subiu ao palco do Fabrique, em Milão, diante de uma plateia superlotada — cerca de 2.000 pessoas — e repetiu a trajetória ambivalente que o torna figura tão fascinante quanto contraditória.

É impossível dissociar este retorno do impacto recente do seu trabalho: com o álbum Make-Up is a Lie o artista alcançou o segundo lugar nas paradas britânicas e lotou a O2 Arena, em Londres, para 20 mil fãs. Em Milão, ao comentar esse salto, ele ironizou o sucesso “sem qualquer empurrão promocional”, numa fala que oscilou entre o mordaz e o contundente — a mesma voz que, em palco, declarou: “estive morto e ressuscitei, morri e ressuscitei de novo”.

O concerto mostrou a dupla face do artista. De um lado, o manifesto sonoro das suas canções solo — com momentos de catarse ao apresentar clássicos como Suedehead e Everyday Is Like Sunday. Do outro, as incursões calculadas no repertório dos SmithsHow Soon Is Now? e a final There Is a Light That Never Goes Out — que despertam nostalgia e lembram uma história dividida entre parcerias passadas e trajetórias individuais.

Essa divisão aparece também nas letras recentes e no comportamento público do cantor. Em particular, o novo tema Notre Dame suscitou inquietação: a canção parece alinhar-se a leituras conspiratórias que apontam — sem provas — para responsabilidades de grupos terroristas no incêndio da catedral. É uma guinada ideológica que deixa a plateia em compasso de espera, como se assistíssemos a um roteiro que alterna entre introspecção social e deriva polémica.

No entanto, o público de Milão parecia pouco disposto a transformar a noite em tribunal ideológico. Afinal, a voz permanece cristalina e a presença de palco, magnética. A performance teve momentos de pura comunhão — o refrão que explodiu em aplausos na sala escura transformou o Fabrique num santuário temporário de pertença.

Há outro elemento do enredo: a sombra de Johnny Marr. Meses antes, Marr apresentou quase os mesmos temas no mesmo espaço, revelando o quanto a música dos dois ainda se sobrepõe na memória coletiva. A ausência de uma reconciliação — e o próprio desprezo de Marr à ideia de uma reunião conveniente — reforça a ideia de que talvez seja melhor guardar cada um em seu pedestal: dois lados complementares de uma mesma moeda cultural.

No fim, a sensação é a de um personagem que se reinventa em ciclos, oferecendo ao público tanto canções íntimas quanto declarações que perturbam. Morrissey continua sendo, com todas as suas contradições, um espelho do nosso tempo: uma presença que obriga a olhar além do palco e a perguntar o porquê das ressonâncias que sua música ainda provoca.

10 de março de 2026