O longo século da fronteira adriática: Davide Rossi e a história em camadas do Alto Adriático
Davide Rossi reconstrói o século XX da fronteira adriática, entre rupturas, memórias e possibilidades de reconciliação europeia.
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O longo século da fronteira adriática: Davide Rossi e a história em camadas do Alto Adriático
Em um estudo que lê o mapa como se fosse um roteiro cultural, Davide Rossi, professor da Università degli Studi di Trieste, reconstrói as metamorfoses políticas e jurídicas que moldaram a fronteira adriática ao longo do século XX. Em Il lungo Novecento della frontiera adriatica. Transizioni istituzionali e modificazioni giuridiche (ed. Rubbettino Università), Rossi percorre as camadas históricas — do Império Austro-Húngaro ao Reino da Itália, do Território Livre de Trieste à República Socialista Federativa da Jugoslávia — mostrando como nacionalismos e ideologias deixaram marcas institucionais duradouras.
O livro não é apenas uma cronologia: é uma leitura sensível das cicatrizes e dos equilíbrios precários que caracterizam essa região. A presença do projeto d’annunziano de Fiume, a alternância entre impressões fascistas e comunistas, e os repetidos rearranjos de soberania transformaram o Alto Adriático num verdadeiro espelho do nosso tempo. Como observa Rossi, a área viveu dois tipos de Risorgimento opostos, carregou os traços dos dois grandes conflitos mundiais e chegou a antecipar tensões da Guerra Fria — um cenário de transformação que convida a uma historicização cuidadosa.
Entre as rupturas destacadas pelo autor está a ausência da região da Venezia Giulia no referendo de 2 de junho de 1946 sobre a forma do Estado, ato fundador da República Italiana e da assembleia que redigiu a Constituição — cuja oitava década celebramos neste ano. Rossi explica que a não participação, resultado de uma conjunção de circunstâncias internacionais e problemas de ordem pública, teve um peso político e simbólico profundo: significou ser excluído do momento fundacional de uma nova matriz de valores.
A narrativa do livro dá atenção à dimensão multietânica desses territórios, lembrando que, antes das fraturas do século XX, havia um equilíbrio — ainda que frágil — de convivência. O que se rompeu foi esse frágil pacto de coexistência, esmagado pelo ímpeto nacionalista e pelo conflito ideológico. A tarefa contemporânea, segundo Rossi, é transformar as tragédias em memória cultural consolidada, sem permitir que o passado funcione como obstáculo a processos de reconciliação impulsionados pelo tecido e pelos valores europeus.
Em termos de significância cultural, o trabalho de Rossi funciona como um reframing: desloca a compreensão da fronteira para além de meros mapas e tratados, propondo-a como um lugar de memória e aprendizagem. É, em certo sentido, a semiótica do viral aplicada à história — entender por que determinadas narrativas persistem e como elas moldam identidades coletivas.
Para leitores interessados em direito, história e memória, Il lungo Novecento della frontiera adriatica oferece não só uma sequência de eventos, mas uma reflexão sobre como sociedades podem, com coragem e crítica, costurar o tecido rasgado da convivência. Rossi aponta que o modelo dessas áreas pode inspirar caminhos de reconstrução ancorados na cultura, na lei e na integração europeia — um roteiro para olhar além das feridas e delinear futuros possíveis.