Itamar Gilboa no MIC Faenza: 'World of Plenty' expõe o paradoxo entre abundância e escassez de alimentos
Instalação 'World of Plenty' usa cerâmica e fMRI para expor o paradoxo entre abundância e fome. Exposição no MIC Faenza, 1 mar–26 abr.
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Itamar Gilboa no MIC Faenza: 'World of Plenty' expõe o paradoxo entre abundância e escassez de alimentos
Assinada por Itamar Gilboa e exibida na Project Room do Museo Internazionale delle Ceramiche (Mic) Faenza, a instalação World of Plenty estreia de 1 de março a 26 de abril como um potente espelho do nosso tempo: uma obra que revela, com firmeza estética e rigor científico, o paradoxo entre abundância e escassez alimentar no mundo contemporâneo.
Maioritariamente conhecida por sua investigação de longa duração sobre os sistemas alimentares, a responsabilidade ambiental e a desigualdade global, a prática de Gilboa desenvolveu-se a partir do Food Chain Project (FCP), uma pesquisa autobiográfica sobre consumo que se transformou em crítica contundente das dinâmicas que produzem desperdício e fome. Esse percurso já o levou a intervir em fóruns internacionais, incluindo a COP26 em Glasgow, onde sua obra dialogou com o debate sobre clima e desperdício alimentar.
Em World of Plenty, o artista funda tecnologias de ponta da neurociência com a tradição da cerâmica, produzindo uma experiência que é tanto sensorial quanto política. No centro da instalação estão 260 esculturas cerâmicas que representam células cerebrais — o número é proposital e doloroso: corresponde às pessoas que morrem de fome a cada 15 minutos, o tempo de um lanche rápido, de uma pausa entre reuniões ou de uma visita a uma exposição. Essa escolha transforma estatística em presença física, recusando a anestesia dos números.
Gilboa recorreu à ressonância magnética funcional (fMRI) para mapear sua própria atividade cerebral sob estímulo da fome. Esses mapas foram modelados em três dimensões, impressos em 3D e convertidos em peças de cerâmica apoiadas sobre azulejos feitos à mão que reproduzem seções do cérebro do artista — imagens que evocam, ao mesmo tempo, vulnerabilidade biológica e colapso social gerado pela desigualdade. Um monitor exibe a contagem das vidas perdidas em tempo real, reduzindo trajetórias humanas a números enquanto, ao fundo, o primeiro capítulo do novo filme de Gilboa, também intitulado World of Plenty, estreia com o som de gotas cadenciando o passar do tempo.
O efeito é um reframe da realidade: a obra desloca o espectador do eu íntimo para a consciência compartilhada, como se a sala de exposição se transformasse num roteiro oculto da sociedade em que estamos todos de passagem. A peça não oferece soluções fáceis, mas obriga o olhar a permanecer, a reconhecer que a crise da fome é simultaneamente biológica, política e simbólica.
Como analista cultural, vejo em World of Plenty mais do que uma denúncia: há aqui uma semiótica do viral e um eco cultural que nos obriga a repensar hábitos e estruturas. O trabalho de Gilboa é um convite a ler a fome como capítulo decisivo do nosso tempo — uma narrativa que conecta o prato à política, o corpo ao clima, a cerâmica ao cérebro. No Mic Faenza, essa narrativa ganha forma e exige do público uma posição ativa frente ao drama global.