Bergamo Film Meeting: Europa na tela, 20 anos de «Il vento» e o pulso do presente
Bergamo Film Meeting celebra a Europa na tela: Holland, Enyedi, Kruithof, os 20 anos de Diritti e a homenagem a Kiarostami — um espelho do nosso tempo.
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Bergamo Film Meeting: Europa na tela, 20 anos de «Il vento» e o pulso do presente
Por Chiara Lombardi — No dia 8 de março, o Bergamo Film Meeting transforma o auditório num verdadeiro espelho do nosso tempo, onde o cinema funciona como roteiro e memória coletiva. A programação do dia reafirma que o festival não celebra mulheres por protocolo, mas porque o cinema de hoje encontra nelas vozes capazes de interrogar a Europa e seus labirintos.
A abertura, às 9h00, é com a emblemática Europa Europa da polonesa Agnieszka Holland — obra-manifesto que problematiza identidade, sobrevivência e pertencimento continental. Através da história de um jovem judeu que, após vicissitudes tão romanescas quanto trágicas, se vê obrigado a vestir a farda da juventude hitleriana, o filme reconfigura a memória europeia como um roteiro oculto da sociedade.
Na sequência, a sessão mantém o tom de descoberta com o filme de estreia de Ildikó Enyedi, Il mio XX secolo, contado através das vidas contrastantes de duas gêmeas em Budapeste — pequenas fiandeiras de destinos opostos, já vinculadas ao circuito festivaliero desde a Câmara de Ouro de Cannes em 1989.
À noite, na Mostra Concorso (20h00, Auditório), o francês Les braises de Thomas Kruithof propõe um dilema onde família e ideais colidem: a protagonista é arrastada pelo movimento dos gilet gialli, gesto cinematográfico que reflete a tensão entre afeto e política no palco europeu.
O dia também é de celebração: às 15h00, Giorgio Diritti retorna ao festival para o vigésimo aniversário de Il vento fa il suo giro, filme que, premiado no BFM em 2006, consolidou-se entre os marcos do cinema italiano do século XXI e ecoou nas salas como o cinema de uma outra Itália, uma paisagem moral e estética que ainda ressoa.
Na esteira da homenagem a Abbas Kiarostami, que foi aberta ontem com Dov’è la casa del mio amico?, a retrospetiva prossegue hoje com Sotto gli ulivi (por volta das 17h00, Auditório), reafirmando o caráter metacinematográfico e humanista do mestre iraniano.
Em contraponto moderno e literário, quem busca um clássico da adaptação encontra às 9h15, na Sala dell’Orologio, Il processo de Orson Welles, com Anthony Perkins e um elenco humano e surpreendente (Jeanne Moreau, Romy Schneider, Elsa Martinelli e Arnoldo Foà). O prólogo em pinscreen assinado por Alexeieff–Parker recebe homenagem especial — lembrança de que a animação pode ser tão adulta e desafiadora quanto o cinema dito “sério”.
Por fim, a partir de amanhã começa o Kino Club, no Cinema del Borgo: uma seção que mira o público infantil, sem se limitar a ele, porque o cinema, como insistimos hoje, não tem fronteiras de idade, gênero ou forma. O Bergamo Film Meeting reafirma assim seu papel de mapa crítico e afetivo, um festival que não apenas projeta filmes, mas desenha o eco cultural de um continente em transformação.