Por Marco Severini – Em um movimento calculado no tabuleiro diplomático, a Itália decidiu, por ora, congelar a adesão ao Board of Peace para Gaza, a iniciativa promovida pelo presidente americano. A razão invocada oficialmente pela primeira-ministra Giorgia Meloni é uma alegada “incompatibilidade constitucional” que impede a assinatura imediata do estatuto; na prática, trata-se de uma combinação entre um problema jurídico e um nó político sensível.
No plano jurídico, o governo identifica uma tensão entre o conteúdo do estatuto do Board e o disposto no artigo 11 da Constituição italiana — que regula a limitação de soberania em favor da paz — e, segundo Roma, não haveria garantias de condição de paridade entre Estados que permitam ceder competências essenciais. Em termos práticos, é a hesitação sobre até que ponto se estaria autorizando a transferência de prerrogativas nacionais para um organismo cuja natureza e disciplina interna ainda suscitam dúvidas.
Mas, como um alicerce diplomático raramente se apoia em único pilar, há também uma forte componente política. No centro do debate está a presença no organismo de figuras como Vladimir Putin. A primeira-ministra observou com sobriedade que, em qualquer fórum multilateral, é preciso sentar-se à mesa com atores distantes de nossa visão — o que já ocorre no ONU e no G20 —, porém reconheceu que, após anos de postura firme sobre a Ucrânia, voltar a negociar symbolicamente com Moscou suscita contrapartidas políticas domésticas e internacionais.
Nos corredores do poder houve diálogos intensos: a decisão de adiar a assinatura contou com amplo consenso entre as várias correntes da maioria e foi também tema de contactos entre Meloni e o Presidente da República, Sergio Mattarella, onde, segundo fontes parlamentares, se registrou “máxima consonância”. Parlamentares da oposição apelaram, por sua vez, que a premiê recuse formalmente o convite.
Enquanto isso, o governo estuda cenários alternativos — inclusive participar com um perfil reduzido — e não descarta que Meloni faça uma escala em Davos antes de rumar a Bruxelas, onde o Board deve ser formalmente lançado. Há igualmente uma nota de prudência estratégica: recebeu com agrado a suspensão de certos direitos aduaneiros a países europeus, vendo nisso um esforço útil para restabelecer o diálogo transatlântico em meio às recentes tensões geradas pela questão da Groenlândia.
Num tom ponderado em aparição televisiva, Meloni rejeitou a ideia de que o Board possa substituir as Nações Unidas, lembrando que a iniciativa nasce no âmbito de uma resolução da ONU, mas também indicou que existem “perfis” do estatuto que merecem escrutínio jurídico e político. A imagem que se desenha é a de uma diplomacia que não se precipita: prefere testar a solidez dos fundamentos antes de aceitar a arquitetura proposta.
Em síntese, a Itália mantém uma postura de abertura cautelosa — reconhecendo o interesse do mecanismo — mas exige respostas concretas sobre compatibilidade constitucional e consequências políticas. É um movimento de espera estratégica, uma jogada de xadrez em que se protege o próprio rei até que se avaliem melhor as trajetórias possíveis no novo tabuleiro de poder.





















