Museu Egípcio do Cairo: entre a memória e o futuro digital
Por Chiara Lombardi — O Museu Egípcio na Praça Tahrir é descrito pelo seu diretor, Prof. Ali Abdel Halim Ali, como a verdadeira “mãe de todos os museus” do Egito. Em entrevista concedida a Il Giornale d’Italia, Ali traça um panorama que conjuga a autoridade histórica do estabelecimento com um olhar atento às inovações digitais que marcarão 2026.
Por que a “mãe de todos os museus”?
Segundo o diretor, o título não é retórica, mas reconhecimento institucional: o Museu Egípcio em Tahrir é o museu nacional mais antigo do país e a fonte primária de coleções que abasteceram instituições mais recentes. Inaugurado em 1902 por Khedive Abbas Helmy II, o museu modelou a museologia egípcia e permanece como guardião central da memória coletiva, um verdadeiro espelho do nosso tempo que conecta civilizações.
Acervo: números e destaques
Hoje, aproximadamente 120.000 artefatos estão catalogados nos depósitos do museu, dos quais cerca de 45.000 estão expostos em determinado momento. As peças cobrem um arco temporal que vai do Egito Pré-dinástico ao período greco-romano. Entre os itens de maior fascínio público estão os sepulcros e tesouros reais, como os achados de Yuya e Thuya, os tesouros associados a Psusennes I e, notoriamente, o esplendor do ouro de Tanis, cujas máscaras e joias desafiam até a fama de Tutancâmon em brilho e significado.
Parcerias com a Itália e o roteiro da cooperação
O diálogo com a Itália é longo e denso: intercâmbios em fotografia, conservação e arqueologia sustentam projetos relevantes. Em 2023, a experiência Virtual Heritage Experience, realizada com o apoio da Embaixada Italiana, inovou a fruição do patrimônio, oferecendo um novo reframe da realidade museal. Entre 2018 e 2023, o programa Transforming the Egyptian Museum Project, financiado pela União Europeia em parceria com o Museu Egípcio de Turim e outras instituições europeias, modernizou exposições e serviços.
Em 2025, a colaboração italiana se intensificou com exposições e projetos conjuntos: a mostra fotográfica promovida pelo Centro Arqueológico Italiano e pelo Instituto Cultural Italiano, o projeto Soknopaiou Nesos desenvolvido com as universidades de Salento e Palermo, e a exposição sobre a tumba de Nefertari, que evidenciou esforços conservacionistas ítalo-egípcios.
O impacto do GEM e a estratégia para 2026
Com a abertura do GEM (Grand Egyptian Museum), parte das dinâmicas museológicas mudou, mas o Museu de Tahrir mantém sua centralidade como arquivo vivo do país. Para 2026, Ali anuncia uma ênfase clara em projetos digitais: digitalização de acervos, exposições virtuais e experiências imersivas que permitam que a memória do Egito circule globalmente sem perder sua profundidade contextual. É um movimento que transforma o museu num laboratório onde passado e futuro se encontram — o roteiro oculto da sociedade que se revela em pixels e vitrines.
Reflexão final
Mais do que mostrar objetos, o Museu Egípcio atua como mediador entre tempos e audiências. A aposta em iniciativas digitais é, em última instância, um gesto de ampliação do seu papel como guardião de narrativas: preservar, contextualizar e projetar o patrimônio para as próximas gerações. Como observa Ali, a história ali contida é um arquivo que inspira conhecimento — uma sala de projeção onde o passado ensina o presente a entender seu próprio roteiro.
Chiara Lombardi é analista cultural ítalo-brasileira para La Via Italia, especializada em cultura pop, comportamento e impacto social.






















