A noite antes de morrer: Lucio Dalla levou a equipe ao Lago de Genebra e acendeu velas na estátua de Freddie Mercury

No livro de Maurizio Biancani, a noite em que Lucio Dalla acendeu velas junto à estátua de Freddie Mercury no lago de Genebra.

A noite antes de morrer: Lucio Dalla levou a equipe ao Lago de Genebra e acendeu velas na estátua de Freddie Mercury

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A noite antes de morrer: Lucio Dalla levou a equipe ao Lago de Genebra e acendeu velas na estátua de Freddie Mercury

Por Chiara Lombardi — Espresso Italia

No espelho do nosso tempo musical, algumas imagens ficam suspensas como uma cena recorrente em um filme: simples, íntima e ao mesmo tempo carregada de sentido. É assim que abre L’alchimista del suono, o livro de memórias de Maurizio Biancani, onde o roteiro oculto da indústria se confunde com episódios de vida que seriam, de outra forma, meros rascunhos de arquivo.

“La notte prima di morire, Lucio Dalla portò la troupe sulle sponde del lago di Ginevra e accese lumini intorno alla statua di Freddie Mercury”: aneddoti e musica nel libro ‘L’alchimista del suono’ — ilfattoquotidiano.it
Crédito: “La notte prima di morire, Lucio Dalla portò la troupe sulle sponde del lago di Ginevra e accese lumini intorno alla statua di Freddie Mercury”: aneddoti e musica nel libro ‘L’alchimista del suono’ — ilfattoquotidiano.it

O relato começa em 1977, em um estúdio improvisado num apartamento da via Schiavonia, em Bolonha. A porta se abre e dois jovens chegam como quem foge de algo — e de si mesmos: magro, de olhos azul-cinza, com cigarillo na boca, apresenta-se como Vasco Rossi. Ao lado, o moreno longilíneo é Gaetano Curreri. Pedem para gravar duas canções: “Jenny” e “Silvia”. Biancani, jovem também, acredita. Põe a mão na mesa de mixagem e começa a transformar fitas e sonhos em som.

Essas cenas de bastidor contam muito mais do que o gesto técnico: elas são o mapa de uma cena, a semiótica de um tempo em que a música precisava ser “feita” com dedos e coragem. Biancani, para erguer aquele estúdio, endividou-se com dez sócios — onze milhões de liras, um a cada um — e, para pagar as contas, duplicava cassetes de comícios do PSI de Bettino Craxi. Não era glamour; era persistência. E dessa persistência nasceu a trajetória de um dos principais engenheiros de som da Itália, alma e coluna da Fonoprint, laboratório onde muitas canções encontraram sua forma final.

O livro — L’alchimista del suono – Cinquant’anni di musica al mixer, curadoria de Andrea Fiorenza e edição Fernandel — reúne essas cenas como takes que, montados, recriam uma vida profissional e pessoal. Há anedotas, como a do baterista chamado Attila que se recusou a tocar num corredor, e lembranças de amizades que atravessam décadas.

Uma dessas lembranças abre um capítulo que se lê como uma sequência final de um filme: a noite de 28 de fevereiro para 1º de março de 2012, em Montreux. Biancani e a equipe acompanhavam o tour europeu do “folletto” bolognese, Lucio Dalla. Ao bater na porta do quarto, Dalla entrou, sentou-se aos pés da cama e disse: “Preparati — dobbiamo andare a Basilea”. A noite havia sido de celebração; o concerto, memorável. Mas, às duas horas da manhã, Dalla decidiu levar toda a equipe até as margens do lago de Genebra. Ali, ao redor da estátua de Freddie Mercury, acendeu pequenos lumini — velas — e ficou em oração, recolhido.

A manhã seguinte trouxe a notícia que todos conhecem: um infarto pôs fim à vida de Dalla. A viagem a Basile não aconteceu. Aquele gesto simples, quase ritual, convertido em memória do fonico, tornou-se um adeus não pronunciado — uma cena que carrega, além do peso emotivo, uma potência simbólica sobre como artistas criam rituais privados diante da história pública.

Biancani não é apenas testemunha; é operador do som e do tempo. Em suas páginas, nomes como Vasco Rossi e Lucio Dalla são também personagens de um grande ensaio sobre memória coletiva. O livro funciona como um reframe — uma maneira de ler o que a indústria musical nos devolve em cânones e nostalgias.

Para quem vê a música como trilha sonora de identidades e transformações, L’alchimista del suono é leitura obrigatória: não apenas pelos encontros com ícones, mas pela forma como revela o ofício — às vezes invisível — que molda o som que nos define. É o eco cultural de quem esteve atrás do microfone e do fader, traduzindo instantes em registros eternos.

Detalhes como a fita de “Jenny e Silvia”, a recusa de Attila, as cassetes do PSI e a vela ao redor da estátua de Freddie Mercury compõem um mosaico onde cada peça é também espelho: não apenas da carreira de Maurizio Biancani, mas de uma era em que a música se fazia com pouco e sonhava em grande.

Em tempos de streaming e arquivos infinitos, essas memórias lembram que a produção musical já foi, muitas vezes, um ato de alquimia — e que certos rituais noturnos à beira de um lago podem, paradoxalmente, iluminar para sempre o que resta de alguém.