Por Chiara Lombardi — Espresso Italia
No espelho do nosso tempo musical, algumas imagens ficam suspensas como uma cena recorrente em um filme: simples, íntima e ao mesmo tempo carregada de sentido. É assim que abre L’alchimista del suono, o livro de memórias de Maurizio Biancani, onde o roteiro oculto da indústria se confunde com episódios de vida que seriam, de outra forma, meros rascunhos de arquivo.
O relato começa em 1977, em um estúdio improvisado num apartamento da via Schiavonia, em Bolonha. A porta se abre e dois jovens chegam como quem foge de algo — e de si mesmos: magro, de olhos azul-cinza, com cigarillo na boca, apresenta-se como Vasco Rossi. Ao lado, o moreno longilíneo é Gaetano Curreri. Pedem para gravar duas canções: “Jenny” e “Silvia”. Biancani, jovem também, acredita. Põe a mão na mesa de mixagem e começa a transformar fitas e sonhos em som.
Essas cenas de bastidor contam muito mais do que o gesto técnico: elas são o mapa de uma cena, a semiótica de um tempo em que a música precisava ser “feita” com dedos e coragem. Biancani, para erguer aquele estúdio, endividou-se com dez sócios — onze milhões de liras, um a cada um — e, para pagar as contas, duplicava cassetes de comícios do PSI de Bettino Craxi. Não era glamour; era persistência. E dessa persistência nasceu a trajetória de um dos principais engenheiros de som da Itália, alma e coluna da Fonoprint, laboratório onde muitas canções encontraram sua forma final.
O livro — L’alchimista del suono – Cinquant’anni di musica al mixer, curadoria de Andrea Fiorenza e edição Fernandel — reúne essas cenas como takes que, montados, recriam uma vida profissional e pessoal. Há anedotas, como a do baterista chamado Attila que se recusou a tocar num corredor, e lembranças de amizades que atravessam décadas.
Uma dessas lembranças abre um capítulo que se lê como uma sequência final de um filme: a noite de 28 de fevereiro para 1º de março de 2012, em Montreux. Biancani e a equipe acompanhavam o tour europeu do “folletto” bolognese, Lucio Dalla. Ao bater na porta do quarto, Dalla entrou, sentou-se aos pés da cama e disse: “Preparati — dobbiamo andare a Basilea”. A noite havia sido de celebração; o concerto, memorável. Mas, às duas horas da manhã, Dalla decidiu levar toda a equipe até as margens do lago de Genebra. Ali, ao redor da estátua de Freddie Mercury, acendeu pequenos lumini — velas — e ficou em oração, recolhido.
A manhã seguinte trouxe a notícia que todos conhecem: um infarto pôs fim à vida de Dalla. A viagem a Basile não aconteceu. Aquele gesto simples, quase ritual, convertido em memória do fonico, tornou-se um adeus não pronunciado — uma cena que carrega, além do peso emotivo, uma potência simbólica sobre como artistas criam rituais privados diante da história pública.
Biancani não é apenas testemunha; é operador do som e do tempo. Em suas páginas, nomes como Vasco Rossi e Lucio Dalla são também personagens de um grande ensaio sobre memória coletiva. O livro funciona como um reframe — uma maneira de ler o que a indústria musical nos devolve em cânones e nostalgias.
Para quem vê a música como trilha sonora de identidades e transformações, L’alchimista del suono é leitura obrigatória: não apenas pelos encontros com ícones, mas pela forma como revela o ofício — às vezes invisível — que molda o som que nos define. É o eco cultural de quem esteve atrás do microfone e do fader, traduzindo instantes em registros eternos.
Detalhes como a fita de “Jenny e Silvia”, a recusa de Attila, as cassetes do PSI e a vela ao redor da estátua de Freddie Mercury compõem um mosaico onde cada peça é também espelho: não apenas da carreira de Maurizio Biancani, mas de uma era em que a música se fazia com pouco e sonhava em grande.
Em tempos de streaming e arquivos infinitos, essas memórias lembram que a produção musical já foi, muitas vezes, um ato de alquimia — e que certos rituais noturnos à beira de um lago podem, paradoxalmente, iluminar para sempre o que resta de alguém.





















