Como o Irã Está Redesenhando o Tabuleiro: Ataques a radares e defesas dos EUA no Golfo

Irã altera tática no Golfo: mira radares e defesas aéreas dos EUA com drones e milícias, visando desgaste estratégico e ganhos políticos.

Como o Irã Está Redesenhando o Tabuleiro: Ataques a radares e defesas dos EUA no Golfo

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Como o Irã Está Redesenhando o Tabuleiro: Ataques a radares e defesas dos EUA no Golfo

Marco Severini — O conflito no Golfo evolui para uma nova fase estratégica: o Irã deslocou seu foco para os pontos nevrálgicos da capacidade militar americana, mirando sobretudo radares e sistemas de defesa aérea que sustentam a presença dos Estados Unidos na região. Esse movimento revela um aprendizado rápido e calculado de Teerã, que adapta táticas para explorar fragilidades nos alicerces da diplomacia e da defesa ocidental.

No início do confronto, iniciado em 28 de fevereiro com um ataque atribuído a EUA e Israel, a resposta iraniana foi direta: salvas de mísseis e enxames de drones nas primeiras 48 horas. Porém, segundo análises militares e reportagens como a do New York Times, Teerã mudou o padrão operacional. Ao invés de apenas igualar volume por volume, passou a degradar seletivamente os elementos que multiplicam a potência de fogo americana — em especial sensores e interceptores.

Fontes do Pentágono indicam que a campanha iraniana agora mescla ataques diretos com operações por meio de milícias aliadas na região. Um episódio emblemático ocorreu no Curdistão iraquiano, onde uma milícia pró-iraniana lançou um enxame de drones contra um hotel de luxo em Erbil — local conhecido por abrigar militares americanos. Esse episódio confirma, para os analistas, o conhecimento iraniano sobre a dispersão da presença americana, inclusive em instalações civis.

Três autoridades militares norte-americanas consultadas observaram que Teerã parece ter aceitado não competir na categoria de pura superioridade de fogo contra EUA e Israel. Em vez disso, aposta em uma guerra de atrito que, se sustentada, pode ser convertida em ganho político. A estratégia é nítida: exaurir interceptores, sobrecarregar sistemas como THAAD e Patriot, e criar dilemas logísticos para a defesa americana no teatro do Golfo.

O aprendizado do passado é citado com frequência. A experiência da chamada "guerra dos 12 dias" do ano anterior ensinou lições duras sobre o consumo rápido de interceptores. Vali Nasr, especialista em Irã da Johns Hopkins, sublinha: "É surpreendente o quão rapidamente aprenderam e aplicaram as lições daquela guerra. Compreenderam que uma de nossas fraquezas está nas capacidades defensivas, como interceptores e sistemas THAAD e Patriot."

Relatórios do Center for Strategic and International Studies quantificam o problema: durante o confronto anterior os EUA chegaram a empregar entre 100 e 250 interceptores do sistema THAAD — até metade dos estoques disponíveis — e cerca de 80 mísseis SM-3, quase um quinto das reservas. Esses números ilustram a vulnerabilidade estrutural que o Irã busca explorar.

Do lado americano, o chefe dos Estados-Maiores Reunidos reconheceu a adaptação mútua: "Nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo. Eles estão se adaptando, assim como nós". Nessa frase cabe uma leitura em mapa: estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis no poder regional, onde sensores e sistemas de defesa funcionam como peças-chave no tabuleiro.

Em suma, a tática iraniana atual é menos sobre destruição total e mais sobre reconfiguração do equilíbrio de forças. Ao mirar os nervos da arquitetura defensiva americana — radares, defesa aérea e estoques de interceptores —, Teerã busca transformar limitações técnicas em dividendos estratégicos. O resultado pode não ser uma vitória clássica no campo de batalha, mas um ganho político e simbólico: desgastar as respostas adversárias e forçar recalibrações de poder que têm repercussões geopolíticas duradouras.

Para os estrategistas, a lição é clara: a estabilidade regional depende tanto da robustez física das defesas quanto da resiliência logística e da capacidade de prever movimentos táticos que reescrevem rapidamente o mapa dos riscos. No xadrez da geopolítica, pequenos ajustes em sensores e interceptores podem equivaler a um movimento decisivo no centro do tabuleiro.