Três praças, um tabuleiro: a repercussão do conflito no Médio Oriente nas ruas de Milão

Três manifestações em Milão refletem as divisões do conflito no Médio Oriente: iranianos anti-regime, pró-ayatolás e apoio à causa palestina.

Três praças, um tabuleiro: a repercussão do conflito no Médio Oriente nas ruas de Milão

Por Marco Severini — Em uma manhã marcada por tensões e simbolismos, Milão viu convergir, em três praças distintas, manifestações que refletem as fraturas geopolíticas do Médio Oriente no palco europeu. O que se desenha nas ruas é menos uma sucessão de ocorrências isoladas e mais um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: atores diversos disputando narrativas, alianças e legitimidades.

Na praça mais numerosa, Piazza Castello, iranianos contrários ao regime levantaram a bandeira do sol nascente e, em alguns casos, estandartes de Israel e dos Estados Unidos. Ali clamam pela queda da República Islâmica e pedem pressão ocidental que sustente a coalizão que vem atacando as estruturas repressivas do regime. Em primeiro plano está a figura de Reza Pahlavi, apontado por parte da diáspora como o único capaz de unir forças diversas e conduzir o país a eleições livres. "Ma sia chiaro che nessuno vuole imporre un leader", disse Mariofilippo Brambilla di Carpiano, do time de Reza Pahlavi e presidente da Associazione Italia-Iran, esclarecendo que a busca é por um ponto de convergência, não pela imposição autoritária.

Em contraponto, na Piazza della Repubblica, agrupamentos favoráveis ao regime dos aiatolás — em grande parte compostos por paquistaneses — desfilaram com retratos de Ali Khamenei e bandeiras da República Islâmica. Do megafone partiram gritos de "americani e israeliani assassini", uma referência direta ao ataque de 28 de fevereiro em uma escola primária feminina em Minab, no sul do Irã, que matou mais de 170 pessoas e que o New York Times chegou a sugerir ter sido possivelmente executado por forças estadunidenses. Muitas mulheres, de véu e vestidas de preto, compunham o cortejo, evocando o tecido identitário religioso que sustenta parte do regime.

As duas praças estão divididas não apenas por símbolos, mas por interpretações históricas. Bathi Hasnain, pakistano, comparou Khamenei ao Papa — uma alusão à autoridade espiritual — enquanto Brambilla rebateu que "a verdade è che abbiamo il 70-80% del popolo iraniano" ao lado da oposição, e que resta apenas uma minoria de apoio ao regime por interesse ou conveniência.

Por fim, a terceira concentração, partindo da La Scala às 15h, foi organizada pela Associação Palestinesi in Italia sob a faixa "Giù le mani dal Medio Oriente". O cortejo seguiu até o Consulado dos EUA, próximo à Via Turati, com bandeiras da Palestina e do Líbano e slogans contra o que denominaram "guerra imperialista" conduzida por Israel e pelos Estados Unidos. Foi uma demonstração clara de que o conflito regional projeta sombras longas sobre as diásporas e mobiliza sentimentos de solidariedade e indignação em cidades-chave da Europa.

Do ponto de vista da geopolítica, estas três praças funcionam como vértices de uma mesma tectônica de poder: visões de mundo inconciliáveis que se movem em espaços públicos, buscando moldar a percepção internacional. Como um tabuleiro de xadrez, cada peça — voz, bandeira, imagem — foi colocada estrategicamente para ganhar influência e legitimidade. A estabilidade das relações internacionais, aqui, assenta-se sobre alicerces frágeis; e a arquitetura das narrativas públicas em Milão é, por ora, o mapa provisório dessa disputa.