René Redzepi se afasta do pop-up do Noma em Los Angeles após denúncias de abuso
René Redzepi se afasta do pop-up do Noma em Los Angeles após denúncias de abuso; residência prossegue por 15 dias sem o chef.
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René Redzepi se afasta do pop-up do Noma em Los Angeles após denúncias de abuso
Por Francesca Montelupo — Com o coração pesado e a voz que lembra as conversas íntimas à mesa, o chef René Redzepi anunciou que dará um passo atrás: ele não liderará mais a residência temporária do Noma em Los Angeles. A notícia chega como uma guinada amarga para quem via no criador da chamada nova cozinha nórdica um artesão das memórias gustativas — e, ao mesmo tempo, como um lembrete de que a cozinha também é palco de responsabilidades humanas profundas.
O anúncio foi feito em uma história no Instagram, onde Redzepi aparece emotivo diante da equipe reunida antes da abertura. Depois de duas décadas dedicadas a construir e guiar o restaurante que mudou paradigmas, ele disse ter decidido fazer um passo atrás e deixar que os líderes internos conduzam o projeto adiante. Reconheceu, ainda, comportamentos equivocados no passado e afirmou que passou por mudanças pessoais.
A residência do Noma em Los Angeles, que transformou uma villa em Silver Lake em um enclave temporário da sua cozinha, segue programada para mais 15 dias, com jantares que custam 1.500 dólares por pessoa. Mas a presença física do chef, eixo simbólico do projeto, não fará mais parte desse capítulo.
A crise que envolve o nome de Redzepi e do Noma ganhou fôlego a partir de uma investigação do New York Times: dezenas de ex-funcionários relataram ter sofrido ou testemunhado maus-tratos físicos e psicológicos na cozinha do Noma em Copenhague — hoje encerrada como sede. As vozes que surgem dessas cozinhas são, para mim, como ervas que revelam o caráter do caldo: se algo foi queimado, não basta cobrir com sal.
Em Los Angeles, além da ausência do chef, a residência tem enfrentado protestos durante o dia, organizados por Jason Ignacio White — um dos protagonistas das mobilizações anteriores relacionadas ao Noma — e pela ONG One Fair Wage. As manifestações ocorreram aos pés da villa no bairro de Silver Lake, evidenciando que o debate ultrapassa a cozinha e toca as questões de trabalho e dignidade.
Para quem, como eu, guarda a ideia da cozinha como memória, território e pacto entre produtor e mesa, o episódio é uma ferida que pede escuta e reparação. Não se trata de demonizar o legado culinário, mas de reconhecer que a tradição também precisa passar por uma depuração moral: assim como um molho precisa tempo e paciência para apurar as notas, as instituições e as lideranças devem se submeter a um processo honesto de responsabilização e cura.
O pop-up do Noma em Los Angeles é um dos projetos itinerantes que mantêm viva a atividade do restaurante após o fechamento da sede histórica. Agora, enquanto a programação segue sem o rosto que a projetou, a comunidade da gastronomia observa e espera por gestos claros — não apenas palavras emocionadas em uma filmagem — que transformem o arrependimento em mudanças concretas em prol de ambientes de trabalho seguros e respeitosos.
Na cozinha, como na vida, a verdadeira mestria passa pela humildade de ouvir, pela paciência de remediar e pelo respeito às raízes que sustentam cada prato. Que este momento sirva para apurar práticas, proteger as vozes dos trabalhadores e preservar, com honestidade, a herança que a culinária pode — e deve — deixar ao mundo.