Antonia Liskova dirige sua fábula contemporânea: “Il mio nemico immaginario” e a memória que volta do cinema

Antonia Liskova dirige 'Il mio nemico immaginario', fábula sobre memória, infância e identidade — do set em Campagnano à sua origem na Eslováquia.

Antonia Liskova dirige sua fábula contemporânea: “Il mio nemico immaginario” e a memória que volta do cinema

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Antonia Liskova dirige sua fábula contemporânea: “Il mio nemico immaginario” e a memória que volta do cinema

Sob o céu de Campagnano, nos arredores de Roma, nasce uma pequena fábula que mistura fantasia infantil e memórias adultas: Il mio nemico immaginario, produção da Minerva que marca o aguardado debut de Antonia Liskova na direção. No set, a narrativa se desenrola com delicadeza — uma menina que não encontra amigos verdadeiros cultiva um amigo imaginário; a mãe (interpretada por Giulia Bevilacqua) lhe dá acolhimento, enquanto o pai (interpretado por Fabio Volo), um professor de matemática de perfil racional, se mostra incrédulo. O ponto de virada chega quando surge, furioso, o amigo imaginário do passado do próprio pai. Assim se revela, com charme e melancolia, o significado do título.

Esta fábula contemporânea é, nas palavras da diretora, uma chamada para lembrar que “quando nos tornamos adultos, esquecemos que já fomos crianças”. É também um espelho do nosso tempo: o filme propõe um reframe da realidade onde o cotidiano e a memória infantil conversam, expondo o roteiro oculto das emoções que carregamos.

Baixada das colinas de Bojnice, na Eslováquia, Antonia Liskova traz ao cinema parte de sua biografia como combustível emocional. Cresceu em uma família modesta — os pais eram operários e o pai, músico desajustado, lutou contra o alcoolismo e tirou a própria vida. A atriz recorda em voz firme os ecos dessa dor: escreveu ao Papai Noel pedindo para acordar menino, acreditando que seria mais aceito por ele. Tinha 18 anos quando, apoiada por amigos, deixou a Eslováquia e veio para a Itália com a prioridade de ajudar economicamente a irmã mais nova. Em Roma, trabalhou como garçonete em uma pizzaria até entrar no universo das passarelas.

A transição para a atuação aconteceu quase por acaso: acompanhando uma amiga a um teste, foi selecionada para o papel de uma espiã russa no filme Game Over, ao lado de Alessandro Gassmann. Na televisão, reencontra Gassmann na série de Tavarelli, Guerrieri – La regola dell’equilibrio, onde interpreta a vizinha que ilumina a vida complexa de um advogado inspirado nos romances de Carofiglio.

No relato de Antonia, há ainda as marcas do contexto histórico: viveu o regime comunista e lembra do simbólico retorno do crucifixo às escolas após a queda do regime. A chegada à Itália trouxe desafios de imagem e preconceito: “Se és uma moça do Leste, tens de provar o triplo”, diz ela, evocando homens que tentavam manipular e mulheres que a viam como ameaça. O triunfo, afirma, foi conquistado com trabalho — e hoje, depois de anos, ela confessa: “não me toca mais o julgamento alheio. Há muito tempo me sinto em casa aqui.”

Entre detalhes familiares que soam como subtramas de um roteiro, Antonia revela a origem do seu nome italiano: a avó teve um relacionamento com um partigiano italiano chamado Antonio, razão pela qual sua mãe também se chama Antonia. Sobre laços afetivos que não se consumaram, comenta com a mesma clareza que permeia sua trajetória: “Nunca me casei com a família” — referência discreta às complexidades das relações e à liberdade de escolher seu próprio destino.

Como observadora da cultura pop e do inconsciente coletivo, eu vejo em Il mio nemico immaginario mais que um filme de estreia: é um espelho onde a infância volta para ajustar as contas com a vida adulta, um pequeno monumento à resistência emocional de quem migra, trabalha e reconstrói identidades. Antonia Liskova, agora diretora, coloca em cena o eco cultural de suas memórias e nos convida a revisitar o roteiro íntimo que cada um carrega.