Remo Anzovino: o piano que compõe 150 anos do Corriere como memória sonora

Remo Anzovino assina a trilha do docufilm pelos 150 anos do Corriere, unindo piano, eletrônica e memória sonora da Itália.

Remo Anzovino: o piano que compõe 150 anos do Corriere como memória sonora

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Remo Anzovino: o piano que compõe 150 anos do Corriere como memória sonora

Remo Anzovino, pianista e compositor italiano, assina a coluna sonora do docufilm 150 anos de Corriere della Sera. Em cartaz nos cinemas, o filme — produzido por 3D Produzioni em parceria com a Fondazione Corriere della Sera, dirigido por Simona Risi e escrito por Didi Gnocchi com Matteo Moneta e Marco Gangarossa — propõe uma travessia cronológica: das redações de via Solferino ao palco global das grandes manchetes. Neri Marcorè e as assinaturas do jornal acompanham o relato; a música de Remo Anzovino encontra aí o seu roteiro oculto.

O ponto de partida musical parte de uma imagem fundadora do documentário: uma noite de 1876, quando um menino percorre as ruas de Milão vendendo o jornal recém-nascido. Essa figura, batizada por Anzovino como “Strillone”, orientou a criação do tema principal — uma melodia para piano e orquestra que busca traduzir a urgência e a curiosidade do leitor através do ritmo das máquinas de escrever. "Quis lembrar o compasso das teclas nas mãos dos jornalistas", conta o compositor, ao acenar para o piano: uma peça luminosa, pensada para caber tanto na memória adulta quanto na imaginação da criança que anuncia as notícias.

O disco da trilha, publicado em plataformas digitais pela editora Casa Ricordi e distribuído pela Universal Music Italia sob o selo Decca Italy, reúne 31 faixas que costuram episódios emblemáticos da história do jornal e do país. A partitura de Remo Anzovino toma formas diversas: do concerto ao eletrônico, num equilíbrio onde a eletrônica passa a ter a mesma importância que qualquer instrumento orquestral. Esse reframe sonoro permite que momentos de tensão jornalística ganhem textura contemporânea.

Algumas faixas destacam-se pela carga dramática e simbólica. Em "P2", a música mergulha numa tensão profunda, enquanto "Intervista a Khomeini", inspirada no encontro de 1979 entre Oriana Fallaci e o aiatolá, aposta numa construção sonora que remete à fenda cultural daquele episódio. Há também peças íntimas e dolorosas: o solo de piano dedicado a Walter Tobagi, jornalista assassinado em 1980, e "Cutuli", onde uma eletrônica quase noise acompanha a evocação da morte em Cabul da repórter Maria Grazia Cutuli. Uma narrativa musical que, como espelho do nosso tempo, reflete perdas, coragem e memória coletiva.

Para além da técnica, a escolha estética de misturar piano, orquestra e eletrônica é um gesto significativo: é a tentativa de atualizar a memória, colocar a tradição jornalística num diálogo com as sonoridades do presente. Como observa Anzovino, Milão em 1876 tinha relevância cultural comparável a Londres ou Los Angeles hoje — onde Verdi e Puccini apareciam como ícones; hoje, a cidade é palco de outras urgências e outras estéticas. A trilha funciona, então, como um espelho do passado que nos permite entender o presente.

O trabalho para o docufilm é também uma espécie de arqueologia afetiva: resgatar narrativas, sondar feridas, iluminar episódios históricos com uma sensibilidade sonora que não se limita a acompanhar cenas, mas que argumenta sobre elas. Em tempos de velocidade informativa, a música de Remo Anzovino propõe retardar a experiência, convidando à escuta atenta — um gesto de cidadania cultural que transforma manchetes em memória.

O resultado é um álbum-trilha que pode ser ouvido independentemente do filme, e que reafirma a função do jornalismo como aparelho de compreensão do mundo. Na cadência do piano e no pulso eletrônico, o leitor-espectador reconhece o bater das teclas, o rumor das redações e o roteiro oculto que os 150 anos do Corriere della Sera ajudam a tornar visível.