Morrissey em Milão: o retorno do eterno outsider no Fabrique
Morrissey retorna a Milão e transforma o Fabrique em palco de devoção e controvérsia: encontro entre novo álbum, clássicos e polêmicas.
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Morrissey em Milão: o retorno do eterno outsider no Fabrique
Em uma noite que teve o tom de rito e manifesto, Morrissey voltou a pisar no palco italiano — única data em Milão após shows no verão — e transformou o Fabrique lotado em um espelho do nosso tempo. Multigeracional, o público reunia fãs com camisetas da sua imagem, pais levando filhos para testemunhar um artista que, para muitos, é mais do que um cantor: é uma figura mítica e contraditória. Aos 66 anos, Steven Patrick Morrissey permanece um enigma, uma mistura de provocador romântico, narcisista melancólico, e um outsider que recusa rótulos: “Não me chamem de indie, eu não sou”, comentou em tom seco durante a noite.
O clima antes do show já anunciava o tom do espetáculo. Um vídeo de abertura, um mashup inusitado que cruzava imagens da guerra do Vietnã com trechos de Benny Hill, Sigue Sigue Sputnik, Ramones e Little Tony, preparou o terreno para uma performance que navega entre o político e o teatral. Com camisa azul aberta, maracas na mão e o inseparável maço de flores espreitando do bolso do jeans, Moz — alcunha carinhosa dada por Johnny Marr em 1983 — subiu ao palco às 21h em ponto acompanhado por uma banda de cinco músicos.
A energia chegou com a descarga roqueira de "Billy Budd", um dos momentos mais eletrizantes da noite, em que a ironia cortante da letra se sobrepôs à plateia em êxtase. A apresentação foi um roteiro de contrastes: canções do novo álbum intercaladas com clássicos do repertório, provocações verbais e instantes de autocelebração. Não faltaram episódios característicos da lenda Morrissey — cancelamentos imprevisíveis, polêmicas públicas e declarações incendiárias — elementos que alimentam tanto o culto quanto o repúdio.
Entre faixas, o artista falou sobre sua posição no cenário cultural atual, atacando a chamada "cancel culture" que, segundo ele, teria tentado silenciá-lo. Exaltou o desempenho do trabalho recente: “Nosso novo álbum está em número dois na parada de meio de semana no Reino Unido”, gabou-se, enfatizando o feito “sem passagens nas rádios, sem atenção da mídia”. Em seguida, apresentou "Notre-Dame", single com viés synth-pop elegante, mas que reacendeu controvérsias ao retomar referências a teorias conspiratórias sobre o incêndio na catedral — teorias já amplamente desmentidas — reacendendo o debate sobre os limites entre arte, opinião e responsabilidade pública.
A plateia, por sua vez, respondia com devoção quase religiosa. Havia quem seguisse Morrissey há quatro décadas e quem o visse pela primeira vez; ambos compartilhavam a sensação de participar de um ritual cultural. A performance soou como uma projeção do seu jeito intransigente: ora cínico, ora comovente, sempre incisivo. Em termos narrativos, foi um reframe da realidade pop, uma mise-en-scène onde o passado e o presente de Morrissey se encontraram, desenhando o roteiro oculto de uma carreira que permanece um eco cultural.
Ao final, ficou a impressão de que o artista não busca conciliação. Prefere ser o espelho que perturba, a figura que insiste em provocar perguntas sobre memória, identidade e o papel do artista no debate público. E enquanto houver plateias que o aclamem ou o rejeitem com igual intensidade, Morrissey continuará sendo — como sempre foi — o eterno outsider, um protagonista ambíguo no cenário de transformação do rock britânico.