Miracolo a Milano no Piccolo: festa, melancolia e um kolossal com alma por Claudio Longhi
No Piccolo Teatro, Claudio Longhi transforma Miracolo a Milano em um kolossal teatral: festa, melancolia e uma visão crítica da Milão contemporânea.
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Miracolo a Milano no Piccolo: festa, melancolia e um kolossal com alma por Claudio Longhi
Assista ao espelho de uma cidade que se reinventa: no palco do Piccolo Teatro, a nova montagem de Miracolo a Milano, dirigida por Claudio Longhi, chega como um verdadeiro kolossal teatral — 46 intérpretes, um caleidoscópio de cenários e figurinos e cenas que alternam entre o preto e branco e explosões de ruído, sussurros e gritos. É uma peça que caminha entre a festa e a melancolia, espelhando o roteiro oculto da sociedade contemporânea.
Sete décadas depois do filme de Vittorio De Sica e Cesare Zavattini, cuja imagem do voo sobre a Praça do Duomo entrou na memória coletiva — e foi retomada por cineastas como Spielberg —, a versão do Piccolo não busca apenas a reprodução. Reduzido por Paolo Di Paolo, o texto é teatralizado com inteligência: Longhi, que conhece Brecht e Ronconi, conduz essa máquina espetacular preservando uma dinâmica interior, uma consciência em evolução que justifica chamar a montagem de um kolossal com alma.
Na cena, reaparecem referências icônicas: a Scala e as suas fachadas, as baracche dos subúrbios, e fragmentos explícitos daquele filme que venceu em Cannes. A milanidade é aqui tratada como personagem — há o cabaré milanês, a saudade que estria os gestos, a Madunina dourada como uma guest star simbólica. O espetáculo brinca com o contraste entre os «sciuri» que querem tudo e a «povera gent» do «Nost Milan» que paga pouco para assistir ao pôr do sol; essa geografia social torna-se o terreno fértil para a ilusão e a magia de palco.
No centro do furacão dramático, a figura da Lolotta, interpretada pela portentosa Giulia Lazzarini, funciona como tempo vivo — leve, necessária, ofertando uma colomba de esperança. Ao seu lado, o Totò de Lino Guanciale projeta múltiplos reflexos: atlético, pensador, deliciosamente melancólico, como quem enxerga para além das gárgulas do presente a cidade profetizada por Testori.
O elenco coral — Daniele Cavone, Michele dell’Utri, Diana Manea, Mario Pirrello, Sara Putignano, Giulia Trivero e os alunos da escola do teatro — compõe um organismo coletivo: um dos atores vale por todos e todos o valem. Há momentos de corrida pela plateia, intervenções quase kabarett, e o espectador é convocado a aceitar a fantasia como instrumento crítico, um reframe da realidade que mistura riso e compaixão.
Este Miracolo a Milano é uma peça histórica para o Piccolo e para a cidade, onde surgem ecos de Arlecchino e até o fantasma de Strehler. Estreada na noite de quarta-feira no palco Strehler, a produção foi recebida com grandes aplausos e permanecerá em cartaz até 1º de abril, enfeitando o teatro com raras cartazes de filmes antigos — como se a memória cinematográfica de Milão colonizasse, por um instante, as cortinas do presente.
Enquanto observadora do zeitgeist, não vejo aqui só entretenimento: vejo um diagnóstico em forma de festim, uma semiologia do viral aplicada ao palco. Longhi entrega um espetáculo que é, ao mesmo tempo, celebração e aviso, um convite a considerar por que precisamos de milagres quando o concreto das casas falta — e por que continuamos a buscar, no teatro, a imagem possível de uma cidade que ainda sonha em voar.