Amanda Seyfried e o poder ritual dos Shakers em 'O Testamento de Ann Lee' — corpo, fé e revolução
Amanda Seyfried em 'O Testamento de Ann Lee': fé, dança e utopia dos Shakers numa obra íntima e radical que chega em 12 de março.
RESUMO ✦
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Amanda Seyfried e o poder ritual dos Shakers em 'O Testamento de Ann Lee' — corpo, fé e revolução
Assumindo um papel que atravessa séculos e abala convenções, Amanda Seyfried é a força visceral por trás de Ann Lee em O Testamento de Ann Lee, o novo filme de Mona Fastvold que chega aos cinemas em 12 de março pela The Walt Disney Company Italia. Apresentado em competição na última Mostra de Veneza, o longa transforma a biografia histórica num evento sensorial: um filme que é, ao mesmo tempo, musical e anti‑musical, biopic e reinvenção de biopic — uma obra que questiona o passado para iluminar o presente.
Fastvold reconfigura a narrativa tradicional ao focalizar a fé como um gesto corporal e a corporeidade como insurgência. O movimento coletivo dos Shakers — a seita radical surgida no final do século XVIII que defendia igualdade de gênero e social — é encenado como uma coreografia de devoção, trejeitos e êxtase. Cantos e cerimônias que eram atos de resistência tornam‑se aqui sequências coreografiadas por Celia Rowlson‑Hall, que esculpem o físico da crença em imagens que oscilam entre o arrebatamento e o tormento.
Ao longo do filme, mais de uma dúzia de hinos tradicionais são reinterpretados, costurados à trilha original do vencedor do Oscar Daniel Blumberg, cuja música adiciona uma camada contemporânea ao arquivo histórico. O resultado é um filme que mais provoca do que explica: uma experiência quase febril em que a estética se torna argumento.
Em conexão a partir de sua casa de campo, a atriz — indicada ao Oscar — reflete sobre a atualidade das inquietações de Ann Lee. "Como seres humanos, não mudamos tanto; buscamos pertencimento e comunidades", diz Amanda Seyfried. Ela aponta a ironia moderna: apesar do acesso digital que aproxima pessoas, a fragmentação e a fragilidade das conquistas sociais persistem. Para a atriz, a história da fundadora dos Shakers é um espelho cultural que nos lembra do valor de falar, afirmar valores e apoiar redes de mulheres — até mesmo em conversas de grupo por mensagens.
Do ponto de vista técnico, interpretar Ann Lee foi um dos papéis mais desafiadores na carreira de Amanda Seyfried. Além da densa carga emocional, o trabalho incluiu a imersão num dialeto mancuniano: "Foi o aspecto mais difícil. Tive que parar de me ouvir e confiar no processo", conta ela, descrevendo o esforço de tornar o vernáculo crível sem perder a verdade interior do personagem.
O filme, cuja abordagem formal desconstrói gêneros, não é apenas uma reconstrução histórica: é um convite a ler o passado como roteiro oculto do presente. Ao colocar a fé no centro do corpo e a dança no centro do sermão, O Testamento de Ann Lee revela como a luta por voz e espaço para as mulheres permanece um tema urgente. Na tela, a liderança indomável de Ann Lee torna visível um eco cultural que ainda reverbera nas comunidades contemporâneas.
Para quem busca cinema que provoque reflexão além do entretenimento, a obra de Fastvold — com a interpretação visceral de Amanda Seyfried — oferece um reframe da história: é o espelho do nosso tempo, onde ritos e revoluções nos lembram que a transformação cultural se faz também no corpo.