J‑Ax e a Ligera County Fam.: quem são os artistas que dividem o palco no Sanremo 2026
No Sanremo 2026, J‑Ax interpreta 'E la vita, la vita' ao lado da Ligera County Fam.: Cochi Ponzoni, Paolo Rossi, Ale & Franz e Paolo Jannacci.
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J‑Ax e a Ligera County Fam.: quem são os artistas que dividem o palco no Sanremo 2026
Por Chiara Lombardi — No roteiro oculto do festival que espelha nosso tempo, surgiu um momento de pura milanesità no palco do Teatro Ariston. Ao anunciar os duetos para a noite das covers, J‑Ax deixou um enigma visual: cinco figuras fotografadas de costas contemplando o Duomo de Milão imerso na névoa. A legenda nas redes socias não disse mais do que isto: “Comigo, no palco de Sanremo 2026, terei a honra de tocar com a famigerada banda meneghina ‘Ligera County Fam.’”.
O que parecia ser um simples revival acabou se transformando num encontro intergeracional. A escolha do repertório já anunciava o tom: a cover de “E la vita, la vita”, canção-emblema da cidade lombarda escrita por Enzo Jannacci e Renato Pozzetto e popularizada por Cochi & Renato nos anos 70. Era previsível que a memória coletiva de Milão fosse convocada — mas a formação por trás do nome surpreendeu pela amplitude.
Contrariando os rumores iniciais que apontavam apenas para o duo Cochi & Renato, a “Ligera County Fam.” reúne vozes e corpos do palco e da comédia: Cochi Ponzoni, o ator e humorista Paolo Rossi, a dupla cômica Ale & Franz e Paolo Jannacci, filho de Enzo. Não são apenas músicos; são intérpretes de uma tradição cênica que transporta a canção ao território da memória e do afeto.
Há uma camada de sentido que vale ser lida: trazer para o Ariston representantes tão icônicos da cena milanesa é um gesto de reframe da realidade — um espelho do nosso tempo que reconcilia rap contemporâneo, comédia clássica e uma estética nostálgica. A ausência de Renato Pozzetto, lembrada com ternura, e a presença simbólica de Enzo Jannacci através do filho, criam um eco cultural que transforma a performance numa pequena fábula sobre legado e continuidade.
No palco das covers, a canção promete ser mais do que um tributo. Com J‑Ax — figura do rap que costuma dialogar com temas de fragilidade e identidade — ao lado destes artistas, o número pode funcionar como uma ponte: entre gerações, linguagens e memórias urbanas. É também um lembrete de que o entretenimento, quando bem tramado, atua como uma semiótica do viral e um instrumento de resgate cultural.
Na noite de 27 de fevereiro de 2026, o encontro de estilos e histórias promete acender faíscas. Para além do brilho efêmero do palco, há aqui um pequeno roteiro sobre como a cidade de Milão ainda se conta através da música e do humor — e sobre como o festival continua a ser um cenário de transformação onde o passado e o presente se encenam.
Enquanto observadora cultural, confesso: ver J‑Ax alinhado à Ligera County Fam. é como assistir a uma cena nos créditos finais de um filme europeu que, discretamente, nos convida a repensar o que guardamos como patrimônio afetivo. Sanremo 2026 prometeu duelos e covers; ganhou, sobretudo, um pequeno ensaio sobre identidade e memória.