Itália e Alemanha consolidam uma sintonia estratégica que percorre o espectro político, econômico e cultural, preparando-se para celebrar, em 4 de abril de 2026, os 75 anos da retomada das suas relações diplomáticas no pós‑Segunda Guerra Mundial. Esse movimento, num tabuleiro de poder europeu em mutação, revela um alinhamento que não é apenas retórico, mas operativa e institucionalmente aprofundado.
No plano bilateral, o primeiro encontro entre a presidente do Consiglio, Giorgia Meloni, e o chanceler Friedrich Merz, realizado em 17 de maio de 2025 em Roma, marcou o início de uma temporada política de cooperação mais intensa — Merz participou também da Ukraine Recovery Conference na capital italiana. O diálogo ministerial prosseguiu em 12 de junho, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, e o seu homólogo alemão, Johann Wadephul, assinaram uma declaração conjunta sobre segurança e defesa europeia, competitividade, migrações e o processo de alargamento.
A calendarização de visitas de alto nível reforça a dimensão simbólica e prática dessa parceria: em 15 e 16 de novembro do ano passado, o presidente da República, Sergio Mattarella, deslocou‑se a Berlim para participar da Jornada do Luto Nacional e discursou perante o Bundestag; por sua vez, o ministro Wadephul foi convidado de honra na Conferência dos Embaixadores, na Farnesina, em 15 de dezembro. Também foi assinada uma declaração conjunta para relançar o compromisso humanitário em Gaza, um indicador claro de coordenação em crises externas.
Em Bruxelas, o estreito alinhamento entre Itália e Alemanha traduz‑se em apoio a uma agenda reformista ambiciosa para impulsionar a economia europeia — com foco em competitividade e simplificação regulatória — e em ações concertadas para fortalecer o pilar europeu da NATO, mobilizando recursos para a defesa europeia. No tema do alargamento, os dois países advogam um processo baseado no mérito e em condições equitativas, concebendo o alargamento como um investimento estratégico para a segurança, a estabilidade e a prosperidade do continente.
Quanto às grandes negociações comerciais, Roma e Berlim manifestam convergência em relação ao acordo entre União Europeia e Mercosul e ao tratado com a Índia, já em fases conclusivas. Após o voto de 21 de janeiro, quando o Parlamento Europeu solicitou ao Tribunal de Justiça da UE um parecer legal sobre a intesa UE‑Mercosul, a Alemanha salientou a necessidade de aplicar provisoriamente as disposições comerciais, enquanto Itália e Alemanha defendem investimentos europeus substanciais no próximo Quadro Financeiro Plurianual.
No que toca ao Mediterrâneo e ao Médio Oriente, o coordenamento entre os dois países visa facilitar a reconstrução da Faixa de Gaza e mitigar o sofrimento civil. Na África, a cooperação é multifacetada: a colaboração inserida no Piano Mattei e no Processo de Roma ganha corpo, e na região do Sahel central foi concebida, por iniciativa italiana e alemã, uma Team Europe Initiative destinada a reforçar a resiliência das comunidades locais.
É nesse contexto que a Itália assume um papel particular de ponte mediterrânea — um alicerce geográfico e político que liga o Sul europeu à África e ao Levante. A celebração dos 75 anos não será apenas um rito de memória: será a confirmação de um roteiro pragmático, onde cooperação industrial — lembrando que as duas nações são as primeiras duas manifatture da Europa —, políticas de defesa partilhadas e projetos de ordem humanitária desenham um novo mapa de responsabilidades comuns.
Do ponto de vista estratégico, o relacionamento italo‑alemão funciona como um movimento decisivo no tabuleiro europeu: enquanto se reconfiguram eixos de influência e se redefinem fronteiras invisíveis de poder, Roma e Berlim procuram manter a estabilidade institucional necessária para que a tectônica de poder continue a sustentar um projeto europeu coeso, competitivo e responsivo às crises do século XXI.






















