Hoepli entra em liquidação após 156 anos: o adeus de uma referência cultural de Milão
Hoepli, livraria e editora centenária de Milão, entra em liquidação após 156 anos; sócio majoritário é contra e sindicatos convocam mobilização.
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Hoepli entra em liquidação após 156 anos: o adeus de uma referência cultural de Milão
Por Stella Ferrari — A poucos passos do Duomo, onde vitrines e prateleiras sempre abrigaram manuais, dicionários e obras universitárias, a histórica livraria e editora Hoepli entra em liquidação. A decisão, aprovada em assembleia de acionistas, marca o encerramento de um capítulo de 156 anos na vida cultural e profissional de Milão.
Os sócios de Hoepli Spa deliberaram pelo esvaziamento voluntário da sociedade e sua consequente liquidação. Segundo o comunicado oficial da empresa, a medida foi adotada após uma reflexão aprofundada sobre a situação econômico-financeira: resultados negativos nos últimos exercícios, uma perspectiva adversa do mercado editorial e livreiro e um conflito entre sócios considerado "gravoso". A liquidação foi descrita como a única solução juridicamente adequada para evitar a dispersão do patrimônio empresarial e garantir, na medida do possível, sua melhor salvaguarda — inclusive avaliando a possibilidade de alienação do negócio, mesmo de forma fracionada.
Contrário à decisão, o acionista Giovanni Nava, que detém cerca de 30% das ações, anunciou que irá recorrer. Em nota, Nava declarou seu "grande desagrado" com a votação da maioria e afirmou que se opôs à proposta durante a assembleia. "Continuarei a batalha em todas as instâncias e por todos os meios legais para tentar preservar a atividade da casa editora e da livraria", afirmou, sublinhando a relevância histórica e produtiva do grupo e o empenho dos cerca de 90 trabalhadores empregados pela empresa.
Os sindicatos já mobilizam reações: a SLC Cgil Milano convocou um flash mob em frente à via Hoepli para sábado, 14 de março, às 11h, com a convocação contundente de que "a história de Milão não se liquida". A mobilização social reflete não só o valor simbólico do estabelecimento, mas também o impacto laboral e cultural que a decisão representa para a cidade.
Fundada em 1870 pelo suíço Ulrico Hoepli, que adquiriu uma pequena livraria na Galleria De Cristoforis, nas imediações do Duomo, a Hoepli rapidamente se consolidou como referência para a difusão da cultura técnica e científica na Itália. Já no ano seguinte, em 1871, a atividade editorial teve início com a publicação de uma gramática francesa, primeiro título de um catálogo que cresceria com rapidez e que se tornaria sinônimo de manuais técnicos e científicos para engenheiros, técnicos, arquitetos e estudantes.
Ao longo de décadas, o selo Hoepli tornou-se marca de escolha para profissionais — de manuais célebres para engenheiros e arquitetos a dicionários técnicos e obras de referência — formando gerações e acompanhando a transformação industrial e intelectual do país. A notícia da liquidação soa como uma brusca desaceleração em um motor que, durante mais de um século, impulsionou o conhecimento técnico e profissional italiano.
Do ponto de vista estratégico e de mercado, trata-se de uma decisão com implicações amplas: além da preservação do acervo e do capital imaterial, haverá negociações sobre ativos, possíveis aquisições setoriais e reestruturações de empregos. Em termos de política industrial e cultural, este episódio evidencia a necessidade de calibragem entre inovação editorial, modelos de negócios sustentáveis e políticas públicas que atuem como freios e amortecedores diante de choques de demanda.
Como economista e observadora dos fluxos de capital e cultura, vejo nesta história a interseção entre patrimônio e mercado: há momentos em que é preciso fazer a manutenção fina do motor econômico para garantir que a aceleração futura não custe o desmonte de ativos fundamentais. Aguardam-se agora desdobramentos jurídicos e iniciativas de atores públicos e privados que possam preservar, ao menos parcialmente, o legado da Hoepli.