Frontex: chegadas irregulares caem 52% nos dois primeiros meses de 2026, mas mortes no mar chegam a 660

Frontex registra queda de 52% nas chegadas irregulares em jan-fev de 2026; porém 660 morreram no Mediterrâneo. Análise geopolítica e riscos futuros.

Frontex: chegadas irregulares caem 52% nos dois primeiros meses de 2026, mas mortes no mar chegam a 660

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Frontex: chegadas irregulares caem 52% nos dois primeiros meses de 2026, mas mortes no mar chegam a 660

Bruxelas — Os novos números divulgados hoje pela Frontex, a Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, desenham um quadro de duplo rosto no tabuleiro migratório: uma redução expressiva das chegadas irregulares à União Europeia e, simultaneamente, um custo humano que se mantém inaceitável. Nos primeiros dois meses de 2026 os atravessamentos detectados caíram para cerca de 12 mil, uma redução de aproximadamente 52% em relação ao mesmo período de 2025. Ainda assim, quase 660 vítimas perderam a vida no Mediterrâneo, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Frontex atribui o declínio sobretudo às “condições meteorológicas adversas” que penalizaram as principais rotas migratórias, retardando partidas e reduzindo tentativas de travessia. Porém, como um movimento de xadrez que não altera a essência da posição, as redes de tráfico mantêm-se ativas: “As organizações criminosas conhecem os riscos e continuam a enviar embarcações inadequadas, porque há lucro na desgraça alheia”, anotou a agência.

Do ponto de vista geográfico, a rota da África Ocidental sofreu o declínio mais acentuado, com 1.215 chegadas, um colapso de 83% face ao início de 2025. A rota do Mediterrâneo central permanece a mais percorrida, com 3.395 atravessamentos, representando cerca de 30% do total. A rota do Mediterrâneo ocidental contabilizou 2.172 chegadas (-9%), enquanto a rota do Mediterrâneo oriental registrou 3.297 casos (-50%).

Outros dados relevantes: as travessias pelo Canal da Mancha diminuíram 12%, ficando em quase 3.900 tentativas; as chegadas pela fronteira terrestre oriental com os Estados Bálticos caíram 80% (196); e os fluxos pelos Balcãs Ocidentais recuaram 38% (908). A composição dos fluxos mantém tendências consolidadas, com destaque para cidadãos do Afeganistão, Bangladesh e Argélia.

Frontex também chama atenção para um novo risco estratégico: o agravamento da situação no Médio Oriente — em particular os desenvolvimentos militares entre Estados Unidos, Israel e Irã reportados nos últimos meses — pode, num movimento em cascata, estimular novos deslocamentos na região nos próximos meses. Até agora, porém, esse fator não teve impacto significativo nas fronteiras externas da UE; a agência declara que continuará a monitorar com atenção.

Como analista que observa a tectônica de poder e as linhas de influência, observo que a queda nas chegadas, impulsionada pelo clima, não modifica os alicerces frágeis da diplomacia em matéria migratória. A tragédia no mar recorda que a gestão do fenómeno requer não apenas patrulhas e controlos, mas um redesenho das respostas humanitárias e políticas: sem isso, as mortes persistirão, mesmo quando o vento e as ondas atrasam as partidas.

Em janeiro, o diretor executivo da Frontex, Hans Leijtens, já havia comentado a diminuição na rota do Mediterrâneo ocidental. A mensagem estratégica é clara: em termos de política e segurança, precisamos de movimentos coordenados no tabuleiro, que combinem prevenção, cooperação regional e ações contra as redes de tráfico, para transformar a redução temporária de chegadas em estabilidade duradoura.