Francis Buchholz, o histórico baixista que ajudou a definir o som dos Scorpions, morreu aos 71 anos, após uma batalha privada contra o câncer. A família do músico comunicou o falecimento em 22 de janeiro por meio de uma publicação na página oficial do artista no Facebook, onde contou que ele ‘se foi serenamente, cercado pelo amor’.
Buchholz entrou para a história do rock ao integrar os Scorpions em 1973 e permanecer como pilar do grupo nas décadas seguintes. Seu último disco com a banda foi Crazy World (1990), um álbum que escalou o sucesso internacional do grupo e trouxe faixas emblemáticas — entre elas Wind of Change, que se transformou em trilha não oficial da queda do Muro de Berlim, tornando-se um verdadeiro espelho do nosso tempo e do roteiro emocional da Europa pós-1989.
Dois anos após o lançamento, em 1992, Buchholz decidiu se afastar da banda. Motivos artísticos e de gestão, além do desejo de priorizar a família — ele tinha acabado de ser pai de gêmeas — levaram-no a uma nova etapa longe dos palcos da turnê constante. A mensagem da família reforça que, durante a doença, estiveram ao seu lado enfrentando cada desafio como ensinara: como uma família unida.
Depois de deixar os Scorpions, Buchholz trabalhou como consultor musical e voltou a participar ativamente da cena em 2011 com o projeto Temple of Rock, liderado por Michael Schenker, irmão do fundador Rudolf Schenker. Contribuiu tanto para o álbum homônimo quanto para o registro ao vivo ‘Live in Europe’, reafirmando seu lugar no circuito do rock europeu.
Na publicação de despedida, a família agradeceu aos fãs pela lealdade e carinho, destacando que ‘você deram o mundo a ele e ele retribuiu com sua música’. Mesmo com as cordas agora em silêncio, ‘sua alma permanece em cada nota que tocou e em cada vida que tocou’ — uma declaração que funciona como um reframe poético da ideia de legado: a música como continuador da presença humana.
Como analista cultural, vejo em Buchholz mais do que um músico: um articulador de memórias coletivas. O baixo, instrumento geralmente subterrâneo na mixagem, tem aqui a função de espelho de época: sustenta melodias que acabaram por narrar transformações sociais e políticas, da fragmentação dos anos 80 ao desejo de reconciliação sonora que a Europa procurou após 1989. A trajetória de Buchholz é também a de uma música que atravessa fronteiras e reconfigura identidades — a semiótica do viral antes do termo existir.
Seu legado permanece tanto nas gravações clássicas quanto nas pequenas histórias de fãs que reconheceram em suas linhas de baixo um compasso seguro em tempos de incerteza. A morte de Francis Buchholz não é apenas a perda de um intérprete: é a descontinuidade física de quem ajudou a compor a trilha sonora de uma transformação histórica. Ainda que o corpo se ausente, a sua assinatura musical continua a ressoar — uma presença que ecoa como cena de um filme que insiste em ser revisto.
Dados confirmados: faleceu em 22 de janeiro de 2026; a família anunciou em 23 de janeiro de 2026; idade: 71 anos. Projetos notáveis: participação em Crazy World (1990), saída dos Scorpions em 1992, trabalho com Temple of Rock (2011) e a valorizada contribuição às turnês e álbuns ao longo das décadas.
Chiara Lombardi — Espresso Italia




















