Em um movimento que mistura pressão direta e cálculo político, o presidente Donald Trump confirmou que os EUA começaram conversações sobre Cuba e disse esperar que a ilha venha a negociar um acordo. A declaração foi dada a jornalistas a bordo do Air Force One, enquanto o presidente, trajando smoking, retornava à Flórida — imagem que contrasta com o clima estratégico que se constrói ao redor do Caribe.
A administração Trump intensificou nas últimas semanas medidas destinadas a interromper o fluxo de petróleo para Havana, buscando constranger as vias de abastecimento que a ilha tem mantido — notadamente a partir da Venezuela e, mais recentemente, do México. A Casa Branca adotou um decreto executivo impondo tarifas sobre mercadorias provenientes de países que vendam ou forneçam petróleo a Cuba, movimento interpretado por Washington como forma de pressionar aliados regionais a limitar o apoio energético ao governo cubano.
Em resposta, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum advertiu que a medida pode desencadear uma crise de ajuda humanitária, afetando serviços essenciais como saúde, alimentação e transportes, e anunciou que buscará alternativas para manter o apoio a Havana. A dependência mexicana — que cresceu após a redução das exportações venezuelanas — coloca o governo do México numa posição delicada entre solidaridade regional e relações com Washington.
Ao mesmo tempo, foi aberto um canal de diálogo bilateral entre os governos do México e dos EUA. O Ministério das Relações Exteriores mexicano informou sobre uma conversa telefônica entre o chanceler Juan Ramón de la Fuente e o senador Marco Rubio, na qual ficou clara a intenção de “promover a cooperação entre as respectivas instituições”. Um comunicado do Departamento de Estado, citando o porta-voz adjunto Tommy Pigott, acrescentou que Rubio discutiu com De la Fuente o “avanço de prioridades compartilhadas e da segurança regional”, sem detalhar pontos específicos.
Na retórica pública, o presidente Trump minimizou o risco de uma catástrofe humanitária, afirmando que “não precisa necessariamente ser uma crise humanitária” e expressando confiança de que Havana procurará um acordo: “Penso que provavelmente virão até nós e vão querer chegar a um acordo”, disse, acrescentando que isso tornaria a Cuba “livre de novo” e garantindo que os EUA “serão gentis” na negociação.
Do lado cubano, o presidente Miguel Díaz-Canel denunciou o que qualifica como repetição de pretextos usados contra a Venezuela, advertindo que a ilha não aceitará rendição. Em discurso aos membros do Partido Comunista em Havana, Díaz-Canel disse que “a rendição não é uma opção” e que tempos difíceis exigem “coragem e valor”. A Presidência cubana vê nas medidas de Washington não apenas uma pressão econômica, mas uma tentativa de reconfigurar alinhamentos regionais.
No tabuleiro geopolítico, estas ações representam um movimento coordenado para reduzir corredores de abastecimento estratégico de Havana e forçar um reposicionamento político. A administração americana usa instrumentos comerciais e diplomáticos como peças de pressão; o governo mexicano, por sua vez, procura equilibrar a solidariedade regional com imperativos domésticos. Para Havana, a estratégia estrangeira adversária testa os alicerces frágeis da diplomacia regional e exige respostas que preservem a estabilidade interna.
Em termos estratégicos, estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis: não se trata apenas de sanções econômicas, mas de uma tentativa de reconfigurar zonas de influência e cadeias de abastecimento. A jogada de pressionar o petróleo que chega a Cuba é um lance no tabuleiro que busca forçar uma reação calculada — e a resposta de Havana, assim como o papel do México, determinará os próximos movimentos nesta tensão que se anuncia duradoura.






















