Por Marco Severini — Em um gesto que conjuga memória religiosa e cálculo estratégico, a Jordânia é reafirmada como Terra Santa e chamada a reabrir suas rotas de fé. No alto do Monte Nebo, local emblemático onde, segundo a Escritura, Moisés contemplou a Terra Prometida, a superiora Madre Rebecca Nazzaro, diretora do setor de pastoral de peregrinações do Vicariato de Roma – Opera Romana Pellegrinaggi, lançou um apelo firme: retornar aos peregrinações é um ato de esperança e um movimento político-cultural em favor da paz no Oriente Médio.
Accompagnando um grupo de jornalistas e sacerdotes, Madre Rebecca sublinhou a carga simbólica daquele território — chamado à coexistência pela história do Antigo e do Novo Testamento. Para ela, aquelas pedras e aqueles caminhos são alicerces da tradição que não podem ser tratados apenas como atração turística; precisam ser reconhecidos como lugares de testemunho e de transmissão intergeracional da fé.
Na análise de bastidor, este apelo funciona como um movimento decisivo no tabuleiro da diplomacia cultural: a retomada dos peregrinações envia uma mensagem prática de normalidade e de resistência ao clima de medo que reduziu o fluxo de visitantes. A Jordânia, embora geograficamente próxima a zonas de conflito, preservou estabilidade interna — e é precisamente essa estabilidade que Madre Rebecca e o Núncio Apostólico Mons. Giovanni Pietro Dal Toso destacam como razão para não temer a viagem.
O Núncio reconheceu que houve um declínio claro do turismo após os ataques de 7 de outubro, mas reforçou: a Jordânia foi amplamente poupada das hostilidades diretas e mantém condições de segurança para receber peregrinos. A comunidade cristã local — que representa cerca de 2% da população — continua ativa e contribui para o tecido plural do país.
Do ponto de vista estratégico, a iniciativa de promover visitas religiosas é também um redesenho discreto de fronteiras de influência: os peregrinos que retornam não só reanimam economias locais, como atuam como mensageiros de convivência entre tradições. Estar no Monte Nebo, nos locais ligados aos profetas, a São João Batista e a Jesus, significa reconhecer um património comum que transcende narrativas fragmentadas.
O apelo final é claro e sereno — e feito com a autoridade de quem observa o jogo internacional com olhos de cartógrafo: não se trata de minimizar riscos, mas de pesar preocupações e ganhos, e escolher um movimento que favoreça estabilidade. Retomar os peregrinações para a Jordânia é, assim, um gesto concreto de paz, um modo de fortalecer os fracos alicerces da diplomacia regional por meio da presença cotidiana e da memória compartilhada.
Em suma, a mensagem que chega de Amã é dupla: segurança e sentido. Aquele que peregrina volta não só com lembranças, mas com a capacidade de redesenhar, em pequena escala, a tectônica de poder das relações humanas no Oriente Médio.






















