Por Erica Santini — Ciao, viajante. A ferrovia estatal francesa deu um passo que cheira a mudança de costumes: a SNCF lançou, no início de janeiro, uma nova oferta de primeira classe chamada Optimum Plus, um espaço pensado para quem procura silêncio, conforto e serviço personalizado durante a viagem.
Substituindo a antiga Business Première, a Optimum Plus mantém uma condição que tem inflamado debates: o acesso está reservado a passageiros com mais de 12 anos — ou seja, sem crianças menores de 12 anos. Esta decisão reacendeu críticas e discussões nas redes sociais e nos media franceses, levantando questões sobre inclusão, igualdade e o papel dos transportes públicos no toque sensível da vida familiar.
Por enquanto, as carruagens Optimum Plus estão disponíveis apenas em alguns TGV que percorrem a linha Paris–Lyon. Nestes comboios, as novas carruagens convivem com os espaços de primeira classe tradicionais e com a classe standard, oferecendo uma opção adicional — e limitada — para quem viaja a trabalho ou busca uma experiência mais reservada.
Segundo um porta-voz da SNCF, a novidade foi pensada para “clientes empresariais e para quem pretende uma experiência de viagem especial, com assistência personalizada e flexibilidade”. As condições do bilhete são claras: “Para garantir o máximo conforto, não são permitidas crianças”. A operadora também destaca que a opção está ativa apenas de segunda a sexta-feira e representa uma lotação muito limitada — cerca de 8% dos lugares.
Na prática, explicou a empresa, 92% dos lugares durante a semana e 100% ao fim de semana permanecem abertos a todos os passageiros. A SNCF também lembrou que já oferecia a mesma restrição na antiga Business Première, sem ter sofrido reações tão acaloradas como agora. Além disso, a empresa garante que “as crianças são bem-vindas a bordo” em outras tarifas e zonas familiares, e que há áreas de fraldário nos TGV.
Mas a resposta pública foi rápida e tensa. O podcast Les Adultes de demain criticou a medida nas redes: “Foi ultrapassada uma linha vermelha e ninguém fala disso”, e acusou a maior empresa de transportes públicos do país de ceder a uma política de “proibição de crianças”. No X (antigo Twitter), o economista Maxime Sbaihi sugeriu que a decisão também espelha um fenómeno cultural ligado à estagnação da taxa de natalidade em França.
A comissária para a infância, Sarah El Haïry, foi contundente numa entrevista: “Quando se dá a ideia de que o conforto dos adultos depende da ausência de crianças, é chocante. Não podemos afirmar ‘atenção, temos menos crianças, há problemas demográficos’ e ao mesmo tempo emitir sinais tão explícitos”.
Algumas críticas apontaram ainda uma curiosa contradição prática: animais de companhia são permitidos nestas linhas mediante o pagamento de uma taxa de 10 euros por viagem — uma escolha que alimenta o debate sobre prioridades e acolhimento. Andiamo — no fim, a discussão é sobre o tipo de convivência que queremos no espaço público e sobre como os serviços se adaptam às expectativas de cada viajante.
Enquanto isso, a SNCF insiste que a novidade responde a pedidos antigos de clientes que desejavam áreas inteiras de primeira classe sem crianças nos TGV. O tema seguirá nos próximos dias entre opiniões acesas nas redes e um público dividido entre o desejo de silêncio e o direito à mobilidade familiar. Dolce far niente? Talvez não — mas certamente vale sentir, ouvir e debater.






















