Por Erica Santini — Em uma tarde que cheira a história e a pólvora de pequenas revoluções civis, as ruas e praças de Pompeia viram mais uma vez a voz das guide turistiche levantar-se em defesa do seu papel entre as ruínas. Após a mobilização do dia 13 de fevereiro, quando representantes da categoria ocuparam a praça em protesto contra a decisão de fechar a postação das guias junto às entradas dos Scavi, aconteceu na segunda-feira um primeiro encontro conciliador.
No salão consiliar do Comune di Pompei, o diretor arqueológico Gabriel Zuchtriegel sentou-se frente a frente com lideranças e representantes sindicais para iniciar um diálogo até então negado pela falta de canais formais. Estavam presentes delegações das associações e sindicatos mais representativos: CGIL, AGTC, ANGT, Confguide Campania, Federagit Confesercenti Campania, Uiltucs Campania, Confsal e AGTA.
“Por ora non abbiamo ottenuto i risultati sperati, ma siamo contente di aver dimostrato di essere una categoria compatta e anche che finalmente la direzione del parco ha accolto la nostra richiesta di apertura al dialogo e al confronto, almeno da quanto abbiamo ascoltato venerdì”, declarou Susy Martire, presidente da associação Guide turistiche Campania. Em tradução livre, Susy sublinhou que o objetivo imediato não foi totalmente alcançado, mas que a conquista simbólica — a abertura à conversa — representa um passo importante.
Em meu olhar de ítalo-brasileira que saboreia a luz dourada de Pompeia, a cena lembra um aperitivo onde se alinham intenções: há ainda trabalho a fazer para transformar boa vontade em decisões concretas. Martire frisou que “aprire un tavolo prima di chiudere la postazione avrebbe sicuramente mostrato rispetto nei confronti dell’intera categoria e probabilmente avrebbe evitato prese di posizione, talvolta anche rigide, da ambo le parti.” Em português, ela ressalta que abrir um diálogo antes de decidir pelo fechamento teria sido gesto de respeito e teria possivelmente evitado tensões.
O encontro marca o início de um processo de conversação que as guias desejam ver formalizado antes do início da temporada turística — um tempo precioso em que se contam visitas, histórias e pequenos lucros que sustentam famílias e o tecido cultural local. As associações pretendem discutir não apenas a reabertura das postações junto às entradas dos Scavi, mas também regras de atuação, segurança, identificação profissional e modos de cooperação com a direção do parque.
Como curadora de experiências e amante dos segredos do Bel Paese, sinto que este movimento é também sobre reconhecimento: reconhecer a guia não apenas como narradora de marcos arqueológicos, mas como guardiã das memórias que fazem os visitantes suspirar ao pisar sobre mosaicos e ruas petrificadas. O perfume dos vinhedos vizinhos e a textura do tempo nas paredes exigem interlocutores que saibam transformar contexto em narrativa sensorial.
O tom do diálogo, por ora, é de cautela esperançosa — um convite ao compromisso. Os próximos passos deverão ser acompanhados por toda a comunidade local, porque Pompeia é um palimpsesto: cada decisão reverbera nas camadas do turismo, do trabalho e da identidade cultural. Ciao e andiamo, mas com respeito e escuta: assim se constrói um caminho que celebra o passado sem esquecer o presente.
Reportagem baseada no encontro no Comune di Pompei em 23 de fevereiro de 2026 e nas declarações de Susy Martire.






















