Como se uma cortina líquida se abrisse, um padre de peito largo e batina preta avança pela multidão com uma bola pesada de couro — recheada de vinho e terra — equilibrada na cabeça. Momentos depois, totalmente engolido pela multidão, dispara um tiro de caçadeira para o ar e duas aldeias inteiras entram em alvoroço. Foi assim que eu, Erica Santini, vivi a Páscoa ortodoxa em uma vila a cerca de 45 minutos de Kutaisi, e percebi que a Geórgia ainda guarda rituais que parecem saídos de outro tempo.
Entre vivas e nuvens de pó, sente-se ombros a embater, sapatos a derrapar no asfalto e vontades a testar limites, enquanto dezenas de homens descarregam energia em rajadas curtas e violentas no jogo anual de lelo burti — a ‘bola de campo’ que lembra o râguebi, mas que não é dominada por regras formais. A tradição, que existe desde pelo menos o século XII, pode ocupar o dia inteiro e só termina quando uma equipa empurra a bola para o ribeiro da aldeia rival. Depois, a bola é colocada sobre uma campa em homenagem aos que partiram.
Fiquei maravilhada com o espetáculo, não apenas pela intensidade do jogo, mas pela sensação de estar presente num ritual comunitário tão profundo. E o mais doce: chegar lá foi surpreendentemente simples a partir de Kutaisi, cidade que nos últimos anos tem se reinventado como porta de entrada para muitos visitantes da Geórgia.
Desde que, em 2016, a companhia low cost Wizz Air estabeleceu base na cidade, Kutaisi ganhou um papel novo no mapa turístico nacional. Em 2025, a Geórgia bateu recorde com 5,5 milhões de visitantes internacionais, e mais de um quarto desses viajantes desembarcou por Kutaisi. Ainda assim, a cidade frequentemente é tratada como cidade de passagem — um erro que começa a mudar à medida que infraestruturas e experiências locais se desenvolvem.
Enquanto muitos turistas concentram-se em Tbilisi ou na costa do Mar Negro, a taxa de ocupação hoteleira nas regiões fora da capital tem rondado os 35%. Esse desequilíbrio revela um perfil de viagem: visitantes vindos, hoje em maior número, de países vizinhos, que por vezes passam rápido demais por joias menos óbvias.
Ao lado de tradições como o lelo burti, há outra riqueza que convida a desacelerar: os **vinhos naturais**. A Geórgia é berço de técnicas ancestrais — qvevri e fermentações livres — que resultam em vinhos cheios de caráter, perfeitos para acompanhar longas caminhadas entre vinhedos e monastérios medievais. É um convite ao Dolce Far Niente com um copo na mão e o perfume dos vinhedos ao vento.
Kutaisi oferece também a textura palpável da história: ruas onde a luz muda a cada esquina, mercados com aromas de especiarias e cafés onde a conversa demora. Emily Lush, do blog Wander-Lush e residente de longa data, defende a cidade com paixão — ela e o marido escolheram viver ali em vez de se estabelecer em Tbilisi. “Kutaisi é uma cidade onde se vive bem”, conta. “Comparada com Tbilisi ou Batumi, é mais pequena e mais coesa. Há um verdadeiro sentido de comunidade.”
Se você busca uma viagem que combine **história**, **aventura** e sabores autênticos, ande além do comum: caminhe pelas trilhas ao redor, prove os **vinhos naturais** nos lugares onde são feitos, participe das celebrações locais e deixe-se perder nas conversas com quem vive ali. Kutaisi não é apenas um aeroporto: é uma cidade pronta para ser descoberta, com segredos que se revelam passo a passo, como quem saboreia lentamente um bom vinho italiano durante um pôr do sol dourado.
Andiamo? Venha sentir a Geórgia com os cinco sentidos e permita que Kutaisi reescreva sua ideia de turismo. Aqui, cada jornada é uma experiência de hospitalidade sofisticada — um convite cálido, quase um aperitivo antes do banquete.






















