Em uma manhã que cheirava a poeira antiga e a tinta fresca, o ministro da Cultura, Alessandro Giuli, pronunciou palavras que soaram como uma bênção sobre as pedras e as esculturas de Gibellina. Durante a cerimônia de encerramento da inauguração que consagrou a cidade como capital da arte contemporânea, realizada na sala Agorà do Comune, Giuli definiu Gibellina com uma imagem potente: “Gibellina é como um tempio, un posto sacro“.
Com a voz que buscava o equilíbrio entre a solenidade e a ternura, o ministro lembrou o acontecimento fundante daquele território — o terremoto de 1968 — e explicou como da catástrofe nasceu uma nova consciência coletiva. “Gibellina é l’esempio tangibile di un posto dove è successo qualcosa che ha trasformato e ha provocato la crescita di un tessuto umano superiore”, disse Giuli, traduzindo em imagens o que vemos quando caminhamos por suas praças: a textura do tempo nas paredes, a luz que devolve cor aos mosaicos, o silêncio respeitoso que habita as obras.
Giuli argumentou que a tragédia foi transmutada em algo sagrado: “Sacra è la vita, sacra è la morte. A Gibellina la morte ha portato la coscienza e la possibilità di una vita superiore intonata alla bellezza e all’arte”. Como uma amiga que lhe oferece um copo de vinho depois de uma longa viagem, ele agradeceu às crianças que o receberam — gesto simples que, nas palavras do ministro, mostra o caráter enraizado e genuíno da Sicília: “Certe cose accadono solo in Sicilia…”.
Houve também um momento simbólico e carinhoso da cidade para com o ministro. Giuli apontou para a famosa stella di Pietro Consagra, evocando-a como “a porta d’ingresso ideal das instituições italianas” — uma metáfora visual que faz eco ao convite para que a cultura entre e permaneça. E, em um gesto que mistura homenagem e reconhecimento, o prefeito Salvatore Sutera presenteou o ministro com uma obra de Emilio Isgrò que retrata o rosto de Ludovico Corrao, figura imprescindível na reconstrução moral e cultural da região.
Ao sair da sala Agorà, senti o perfume distante dos vinhedos e a promessa do Dolce Far Niente que habita as tardes da Sicília. Gibellina não é apenas um conjunto de esculturas e ruas; é um lugar onde a memória ferida aprendeu a se vestir de arte e a ensinar-nos a olhar. Andiamo: visitar Gibellina é saborear a história que floresceu entre escombros, é escutar uma cidade que se tornou um tempio dedicado à beleza regeneradora.
Para quem vem de fora, a lição é clara e calorosa: respeitar, ouvir e deixar-se tocar. Gibellina ensina que a cultura pode ser cura, e que a arte — quando acolhe a vida e a morte — torna-se verdadeiramente sagrada.






















