Sou Erica Santini, e convido você a passear comigo por esta história que cheira a papel de prova, antiguidade e expectativas frustradas. O tão aguardado concurso nacional para guias turísticas, cuja tramitação já dura mais de uma década, revelou-se um percurso cheio de pedras no caminho: de quase 30 mil inscritos, apenas uma pequena leva atravessou a primeira porteira.
No dia 18 de novembro, mais de 12 mil pessoas compareceram à prova escrita — aplicada em nove sedes espalhadas pelo país — depois que, no total, haviam sido registradas 29.228 inscrições até fevereiro. O exame escrito consistia em um questionário de 80 perguntas de múltipla escolha, valendo 40 pontos, e exigia no mínimo 25 pontos para aprovação. O resultado parcial divulgado mostrou que somente 230 candidatos foram considerados aptos: menos de 2% dos inscritos.
Daqui nasce a controvérsia. Uma ampla parcela dos eliminados recorreu ao Ministério do Turismo e expôs suas reclamações nas redes sociais, blogs e páginas especializadas. As queixas giram em torno de questões consideradas excessivamente pontuais, de caráter apenas nozionístico, ou sobre temas pouco pertinentes à formação prática de uma guia. Em julho, o próprio ministério havia apontado os âmbitos de preparação: mais de 500 museus, centros históricos, parques arqueológicos, catedrais e palácios distribuídos em 20 regiões — um programa vasto, mas, como observa Francesca Pannuti, presidente do recém-criado Comitê Guide Future, “sem bibliografia nem critérios de aprofundamento”.
Assim, muitos reclamam: um programa enorme, uma prova considerada demasiado difícil e um terreno de estudo sem mapas claros. O ministério, comandado por Daniela Santanché, respondeu que “é singular contestar um exame de habilitação por ser severo”. Do outro lado, Pannuti e os recorrentes sustentam que não se trata de falhas dos candidatos, mas do próprio projeto do exame.
Em 16 de janeiro, após pedidos de acesso aos atos, o MIT apresentou os resultados oficiais apenas aos solicitantes, sem publicar os documentos em seus canais institucionais — uma falta de transparência que só aumentou a inquietação. Entre as demais críticas, destaca-se a espera de mais de oito meses entre a inscrição e a realização do exame. Pior: figuram entre os eliminados profissionais com formação avançada — mestrados em disciplinas histórico-artísticas e arqueológicas.
Pannuti é enfática: essa é uma preparação insustentável e sem utilidade para o exercício real da profissão. “Surge a suspeita de que o processo foi concebido para desincentivar e limitar as habilitações”, afirma. Lembra-se, ainda, que o exame foi financiado com recursos públicos e que o setor do turismo representa mais de 10% do PIB — um campo que pede políticas e seleções justas e alinhadas com a prática profissional.
Ao narrar este episódio, sinto o perfume dos vinhedos e a textura do tempo nas paredes das cidades que os futuros guias deveriam conhecer e transmitir. Andiamo: chamar de seletivo é uma coisa, projetar uma prova que exclui sistematicamente quem respira cultura e história é outra. Os próximos passos dependem dos recursos em curso, da transparência do ministério e, sobretudo, do olhar sensível de quem acredita que guiar é antes de tudo saber saborear a história e compartilhá-la com ternura e competência.
Se há uma lição, ela é também um convite — Dolce Far Niente e vigilância: apertemos os olhos sobre a formação que queremos para quem representa nossas memórias nos itinerários do Bel Paese.






















