Ciao, viajante da memória literária — sou Erica Santini e hoje convido você a saborear a história como quem degusta um espresso ao entardecer. Na luz dourada de uma sala romana, a Villa Farnesina, sede da Accademia dei Lincei, abre as suas portas para um passeio íntimo pela criação dos livros que moldaram nossa língua e imaginação. De 27 de janeiro a 25 de abril de 2026, a exposição Como nascem os clássicos revela que os grandes textos não surgem prontos: nascem de rabiscos, borrões, correções e de uma paciência artesanal.
O percurso expositivo, organizado em seis salas e fruto de uma colaboração com importantes instituições italianas e estrangeiras, reúne testemunhos que tocam a pele do tempo. Entre os tesouros, está o códice sobre o qual Boccaccio copiou o seu Decameron, folhas onde Ariosto compôs os últimos cantos do Orlando furioso, o caderno em que Leopardi trabalhou as Operette morali e um taccuino de bolso de Montale, com a nota escrita à caneta: ‘Ho sceso dandoti il braccio almeno un milione di scale’. Cada peça é um aroma, uma textura do processo criativo, que nos permite quase ouvir o sussurro do autor enquanto ajusta uma frase.
Como curadora da experiência, gosto de pensar que estamos convidados a um gesto de Dolce Far Niente intelectual: olhar de perto os esboços e aceitar o desvelar do pensamento. Para os escritores do século XX, a composição é frequentemente reconstruível em detalhes; ao recuarmos no tempo, o contato com as fontes torna-se mais raro e complexo, mudam práticas de escrita e leitura, e altera-se o diálogo com a língua italiana. A mostra, assim, transforma a erudição em proximidade sensorial — é possível quase sentir o perfume das páginas amareladas.
Andiamo além da superfície: os manuscritos não são apenas vestígios, são mapas do ofício. Eles nos lembram que um clássico é antes de tudo um processo vivo — uma paisagem onde ideias brotam, são podadas, florescem e, por fim, permanecem. Ver esses autógrafos é receber um convite para acompanhar essa transformação, para tocar a matéria onde a palavra ganha ritmo e música.
Se você estiver em Roma neste período, reserve um tempo para esta peregrinação literária. Entre uma visita e outra pela cidade, permita-se escutar o eco das páginas: será como caminhar por uma rua antiga, onde cada pedra guarda uma história. E, ao sair, leve consigo a sensação de que conhecer a gênese de um clássico é um gesto de intimidade com a cultura — um aperitivo para a alma.
Informações práticas: Exposição: ‘Como nascem os clássicos. Gli autografi della letteratura italiana’. Local: Villa Farnesina, sede da Accademia dei Lincei. Período: 27/01/2026 a 25/04/2026.






















