«Que bela região é esta! Em toda a Inglaterra não creio que pudesse encontrar outro lugar tão distanciado do tumulto da vida social…» Assim começa a voz que nos leva direto à alma da brughiera, o palco onde Emily Brontë escreveu o clássico que conhecemos como Cime Tempestose. Sou Erica Santini, e convido você a saborear a história — a luz, o vento e os segredos de um lugar onde a natureza conta partes essenciais do enredo.
A paisagem agreste do West Yorkshire, marcada por neblinas, ventos cortantes e trilhas que parecem desenhar memórias, é o cenário perfeito para a paixão tempestuosa entre Heathcliff e Catherine. Essa mesma charneca foi recentemente trazida às telas por Emerald Fennell, numa adaptação que retorna às raízes do romance e às emoções brutas que o tornaram inesquecível.
Da cidade à charneca: roteiro sensorial
Partindo de Leeds, a viagem para o vilarejo de Haworth já anuncia a transição: a tensão urbana cede lugar ao perfume úmido da terra e ao som do vento atravessando muros de pedra. Andiamo — pegue um trem até Keighley e, se o tempo permitir, embarque no charmoso trem histórico Keighley and Worth Valley Railway, que parece convidar a uma imersão no tempo.
Em Haworth, a casa-museu das irmãs Brontë preserva manuscritos, móveis e objetos que contam o cotidiano das autoras. Caminhar por ali é tocar a textura do passado: o piso range, o ar tem cheiro de chá e livro antigo, e as paredes guardam o eco das conversas que deram origem a personagens eternos. Não perca a igreja paroquial e o cemitério, onde as lápides parecem vigiar a charneca, compondo um cenário que mistura devoção e mistério.
Na brughiera: onde o cenário é personagem
A verdadeira protagonista é, sem dúvida, a charneca. Siga trilhas que sobem e descem, respire o ar salpicado de turfa e ouça o vento — é fácil imaginar Heathcliff e Catherine perseguindo desejos numa geografia que espelha almas em conflito. A inclinação dos carvalhos, os muros cobertos de líquen, o horizonte que se confunde com a tempestade: tudo ali é metáfora viva.
Para quem busca rituais de viagem bem italianos — um momento de Dolce Far Niente —, recomendo estacionar-se num pub local. Prove um prato quente, deixe que o aroma de cerveja e ensopado envolva os sentidos e permita-se contemplar a cena, como se fosse parte de um filme em preto e branco que aos poucos ganha cores.
Do livro à tela
A recente realização cinematográfica de Emerald Fennell retorna às emoções primordiais do romance. Assistir ao filme depois de caminhar pela charneca é uma experiência quase ritual: as cenas ganham corpo quando reconhecemos o vento que já tocamos, as pedras que já contamos, os caminhos que já fizemos.
Se você ama literatura e cinema, traga um caderno — anote frases, sensações, a direção de uma trilha que você queira revisitar. Caso prefira seguir roteiros organizados, há visitas guiadas que explicam pontos-chave da vida das Brontë e os locais que inspiraram passagens do livro.
Toques práticos
- Melhor época: primavera e outono, quando a charneca revela cores dramáticas e o vento ainda é protagonista.
- Transporte: trem até Keighley + ônibus local ou o trem turístico Keighley and Worth Valley Railway até Haworth.
- O que levar: capa impermeável, botas confortáveis e um caderno para captar impressões sensoriais.
Convido você a viver essa jornada como eu faria: com curiosidade, paladar e a sensibilidade de quem sabe que viajar é, acima de tudo, escutar histórias. Em Haworth, cada pedra tem uma narrativa; cada vento, uma lembrança. Venha sentir a força das Cime Tempestose — e, talvez, encontrar ali um fragmento da sua própria intensidade.
Ciao e buona fortuna, até a próxima descoberta.






















